quarta-feira, 16 de março de 2011

Esta é a história do Spark.


A história do Spark é igual a tantas outras histórias de infortúnio com que, diariamente, todos nós nos cruzamos, uns de forma mais apaixonada do que outros.

O Spark apareceu, há duas semanas e vindo do nada, numa rua de Esgueira, em Aveiro, onde dormiu um par de dias completamente ao relento até que as pessoas se apercebessem que ele tinha sido ali deixado. Foi, então, alimentado em abundância e foi-lhe saciada a sede que já lhe percorria o corpo e era visível nas costelas salientes e fraquejantes de uma figura que, não há muito tempo, era decerto robusta. Encontrou depois, num alpendre de uma das casas dessa rua, um lugar tranquilo e sossegado onde pernoitou várias noites ao abrigo das intempéries que, aqui e ali, se foram abatendo sobre a cidade.

Até que uma noite, há sensivelmente uma semana, uma criança correu à frente do alpendre onde o Spark descansava. A sua excitação natural perante a situação levou-o a perseguir a criança, ladrando ameaçadoramente, mas sem nunca lhe tocar. O pai, cego de fúria perante uma ameaça que nunca se concretizou, perseguiu velozmente o Spark com intenção de o matar, de preferência com brutalidade. Felizmente não conseguiu e o Spark, em pânico e pressentindo que a sua existência estava em risco, correu, correu e correu... Durante 20km. consecutivos, o Spark correu até as pernas não responderem mais e, finalmente e sentindo-se em paz, repousou no primeiro descampado que encontrou.

Na manhã seguinte, uma simpática senhora acolheu-o numa casa onde ele permaneceu durante alguns dias... mas o Spark não se adaptou às pessoas nem ao lugar e, como ele não era de ninguém e a senhora não podia ficar com ele, sendo que apenas ali estava recolhido temporariamente, a decisão passou por abrir-lhe o portão.

No entanto, os vizinhos, na ânsia de se verem livres daquele incómodo transeunte que passou a rondar os seus portões imaculados, rapidamente se despacharam a chamar o canil municipal, que levou o Spark.


O canil não pode ser o último destino do Spark. A morte não pode ser o castigo para o crime de viver. O Spark não é "apenas mais um". É o Spark.... E o Spark não deve morrer sem conhecer o doce sabor de um dono que o acarinhe e que goste dele pelo que ele é.

Serás tu esse dono?

Para mais informações contactar o Canil Municipal de Aveiro.



sexta-feira, 11 de março de 2011

Se eu tivesse coragem...


Se eu tivesse coragem, andava num avião a jacto e marcava uma grande viagem. Se tivesse coragem enchia uma parede de casa cheia de pétalas de rosas vermelhas. Tinha muitos cães, muitos gatos e viveria na praia. Se eu tivesse coragem fazia gazeta ao emprego, ficava num canto em sossego. Ou então, gastava um ordenado numa única compra, mas nada fútil. Se eu tivesse ainda mais coragem, começava outra vez do nada, voltava a estudar e comprava porta lápis novo e tudo. Teria um filho, comeria um bolo de chocolate de uma vez só...Se eu tivesse coragem dizia ainda, mais vezes o que penso, escreveria um poema, pegava num microfone e começava uma revolução, mesmo que só dentro de mim.... Aprenderia a fazer surf, andar de mota e tocar viola. Mas eu não preciso de coragem. Basta-me um impulso, só não sei bem, por onde começar...


quarta-feira, 9 de março de 2011

Companheiros de viagem.

(...) Os livros não servem para sermos mais "cultos", mais "informados", mais "preparados". Servem para estarem presentes quando tudo o resto está ausente: eles são o refúgio do mundo quando o mundo persiste em avançar do avesso. Eles são o porto que nos aguarda quando a embarcação está perdida ou destruída. Eles são o primeiro e o último brinde aos amigos que não tivemos, aos sonhos que não vieram. E, como na canção francesa, a todas as mulheres que não nos amaram. A vida nem sempre é justa (...).

João Pereira Coutinho, Revista Única, 12.07.2008.

terça-feira, 8 de março de 2011

Tu como sempre...


Trazias contigo como sempre
alvoroço e início...

Sophia de Mello Breyner Andresen

E assim o Homem se fez soberano...

"Logo no começo do Génesis, está escrito que Deus criou o homem para que ele reinasse sobre os pássaros, os peixes e o gado.
É claro que o Génesis é obra do homem e não do cavalo. Ninguém pode ter a certeza absoluta que Deus realmente queria que o homem reinasse sobre todas as outras criaturas. O mais provável  é que o homem tenha inventado Deus para santificar o seu poder sobre a vaca e o cavalo, poder esse que ele usurpara. Sim, porque, na verdade, o direito de matar um veado ou uma vaca é a única coisa que humanidade, no seu conjunto, nunca contestou, mesmo durante as guerras mais sangrentas.
 É um direito que só nos parece natural porque quem está no topo da hierarquia somos nós. Bastava que entrasse mais outro parceiro no jogo, por exemplo um visitante vindo de outro planeta cujo Deus tivesse dito «Tu reinarás sobre as criaturas de todas as outras estrelas», para que todas a evidência do Génesis ficasse logo posta em questão. Talvez depois de um marciano o ter atrelado a uma charrua ou enquanto estivesse a assar no espeto de um habitante da Via Láctea, o homem se lembrasse das costeletas de vitela que costumava comer e apresentasse (tarde de mais) as suas desculpas à vaca." (...)

Milan Kundera, "Insustentável Leveza do Ser".


segunda-feira, 7 de março de 2011

Estados de alma...

Noite fria, tão fria que não me sinto...

mais fria que todas as outras,

vazia, negra, triste e fria.

Quase a nevar; não lá fora, mas dentro de mim...

domingo, 6 de março de 2011

Quando me amei de verdade.

Quando me amei de verdade,
compreendi que em qualquer circunstância,
eu estava no lugar certo, na hora certa, no momento exacto.
E, então, pude relaxar.
Hoje sei que isso tem nome... Auto-estima.

Quando me amei de verdade, pude perceber que a minha angústia,
meu sofrimento emocional, não passa de um sinal de que
estou indo contra as minhas verdades.
Hoje sei que isso é... Autenticidade.

Quando me amei de verdade, parei de desejar que a
minha vida fosse diferente e comecei a ver que tudo o que acontece contribui para o meu crescimento.
Hoje chamo isso de... Amadurecimento.

Quando me amei de verdade, comecei a perceber como é
ofensivo tentar forçar alguma situação ou alguém apenas para realizar aquilo que desejo, mesmo sabendo que não é o momento ou a pessoa não está preparada, inclusive eu mesmo.
Hoje sei que o nome disso é... Respeito.

Quando me amei de verdade, comecei a ver-me livre de tudo
que não fosse saudável ... Pessoas, tarefas, tudo e qualquer coisa que me pusesse para baixo.
De início, minha razão chamou essa atitude de egoísmo.
Hoje sei que se chama... Amor-próprio.

Quando me amei de verdade, deixei de temer o meu tempo livre e desisti de fazer grandes planos, abandonei os projectos megalómanos de futuro.
Hoje faço o que acho certo, o que gosto, quando quero e no meu próprio ritmo.
Hoje sei que isso é... Simplicidade.

Quando me amei de verdade, desisti de querer ter sempre razão e, com isso, errei muito menos vezes.
Hoje descobri a... Humildade.

Quando me amei de verdade, desisti de ficar revivendo
o passado e de me preocupar com o Futuro. Agora, mantenho-me no
presente, que é onde a vida acontece.
Hoje vivo um dia de cada vez. Isso é... Plenitude.

Quando me amei de verdade, percebi que a minha mente
me pode atormentar e me decepcionar. Mas quando eu a coloco ao serviço do meu coração, ela torna-se uma grande e valiosa aliada. 
Tudo isso é.... SABER VIVER ! ! ! ! ! ! ! ! ! !

(Charles Chaplin)

sexta-feira, 4 de março de 2011

Fragmentos...

A minha matéria é feita de sonhos interrompidos, peças fragmentadas, angústias profundas mas de pouca razão, pessoas no coração e actos por impulso. Estranha sensação sentir falta de gente e lugares que não conheci, experiências que não vivi e momentos que já esqueci. Passei por noites acordada, perdi gente que queria e cumpri palavras que não prometi. Desisti por vezes sem tentar, pensei em fugir para não enfrentar, sorrir para não chorar e escrever para me reconciliar... 


(Adaptado B.P.T)

quinta-feira, 3 de março de 2011

O Presente sem passado nem futuro.

Vivo sempre no presente. O futuro, não o conheço. O passado, já o não tenho. Pesa-me um como a possibilidade de tudo, o outro como a realidade de nada. Não tenho esperanças nem saudades. Conhecendo o que tem sido a minha vida até hoje - tantas vezes e em tanto o contrário do que eu a desejara -, que posso presumir da minha vida de amanhã senão que será o que não presumo, o que não quero, o que me acontece de fora, até através da minha vontade? Nem tenho nada no meu passado que relembre com o desejo inútil de o repetir. Nunca fui senão um vestígio e um simulacro de mim.
O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este, há um virar de página e a história continua, mas não o texto.

 Fernando Pessoa, in 'Livro do Desassossego'

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

O amor é uma coisa, a vida é outra.



Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo. 

O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria. 

Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas. 

Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. 
Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo? 

O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. 

O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. 

O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado do quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. 
Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também. 

Miguel Esteves Cardoso, in 'Jornal Expresso' 

domingo, 27 de fevereiro de 2011

No ruído do silêncio...

No ruído do meu silêncio
não me perco,
traço pontos entre linhas imaginárias,
os pontos reais,
os pensamentos incorpóreos,
e entre um ponto e outro
anoto as variantes de silêncio que percebo:
o silêncio do vento parado,
o silêncio do ar respirado,
o silêncio do meu coração,
o silêncio da minha alma.






Pedro Faria Lopes

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Ausência.

Quero dizer-te uma coisa simples:
a tua ausência dói-me.
Refiro-me a essa dor que não magoa, que se limita à alma;
mas que não deixa, por isso,
de deixar alguns sinais -
um peso nos olhos, no lugar da tua imagem, e um vazio nas mãos.
Como se as tuas mãos lhes tivessem roubado o tacto.
São estas as formas do amor,
podia dizer-te; e acrescentar que as coisas simples
também podem ser complicadas,
quando nos damos conta da diferença entre
o sonho e a realidade.
Porém, é o sonho que me traz a tua memória;
e a realidade aproxima-me de ti,
agora que os dias correm mais depressa,
e as palavras ficam presas numa refracção de instantes,
quando a tua voz me chama de dentro de mim -
e me faz responder-te uma coisa simples,
como dizer que a tua ausência me dói.

Nuno Júdice

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Boas notícias para a protecção de animais em Portugal.

Projecto de Resolução do Bloco de Esquerda para uma nova política de controlo das populações de animais errantes foi APROVADO POR UNANIMIDADE: fim da política de abates em canis municipais, aposta na esterilização (preços simbólicos para associações), direitos para animais que não têm dono...




"Uma importante medida legislativa ( ver anexo) foi hoje, dia 25/2, aprovada na AR por unanimidade. Destacamos do texto aprovado:

- que o Governo seja activo na promoção de uma política de não abate, reforçando a fiscalização e licenciamento dos centros de recolha oficiais, prevendo meios para a sua capacitação em termos de condições de alojamento e tratamentos médico-veterinários, promovendo a esterilização dos animais errantes recolhidos como método eficaz do controlo das populações, em especial dos não reclamados nos prazos legais.

- que os animais a cargo de associações de protecção dos animais ou de detentores em incapacidade económica possam aceder a tratamentos médico-veterinários, nomeadamente a prática de esterilização, a preços simbólicos, nos centros de recolha oficiais.

- o lançamento de campanhas de sensibilização contra o abandono dos animais e de promoção da adopção responsável, além da correcção das falhas existentes ao nível dos sistemas de registo dos animais, como é o caso do SICAFE, e a adequada articulação entre as bases de dados existentes.

-  a promoção de programas RED (Recolha, Esterilização e Devolução) em colónias de animais de rua estabilizadas, instituindo-se o conceito de “cão ou gato comunitário” que garanta a protecção legal dos animais que são cuidados num espaço ou numa via pública limitada cuja guarda, detenção, alimentação e cuidados médico-veterinários são assegurados por uma parte de uma comunidade local de moradores."

Campanha de Esterilização de Animais Abandonados
http://campanhaesterilizacaoanimal.wordpress.com/


quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

movies and words...


Clementine: This is it, Joel. It's going to be gone soon.

Joel: I know.

Clementine: What do we do?

Joel: Enjoy it.

......


Clementine: You know me, I'm impulsive.

Joel: That's what I love about you.



...apenas porque gosto...apenas porque sim...

sentir-me inspirada...



lambuzar-me toda com gelado...


filmes (imprescindível...)



sol de Inverno...


solidão...



quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Solidão...

Solidão não é a falta de gente para conversar, namorar, passear ou fazer sexo... Isto é carência!

Solidão não é o sentimento que experimentamos pela ausência de entes queridos que não podem mais voltar... Isto é saudade!

Solidão não é o retiro voluntário que a gente se impõe, às vezes para realinhar os pensamentos... Isto é equilíbrio!

Solidão não é o claustro involuntário que o destino nos impõe compulsivamente... Isto é um princípio da natureza!

Solidão não é o vazio de gente ao nosso lado... Isto é circunstância!

Solidão é muito mais do que isto...
Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos
e procuramos em vão pela nossa alma.

Chico Buarque

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Há dias assim...

Estranho tempo este em que reduzimos a felicidade à obtenção de coisas, bens materiais... mas que coisa vazia e efémera esta.

Somos felizes porque o nosso carro é melhor que o do vizinho, mais caro... sim, porque até foi essa a grande motivação... automóvel tinhas, satisfazia as tuas necessidades, nem poluía muito, era ainda um modelo recente... não precisavas de comprar um outro carro. O problema reside no facto de que o vizinho do lado comprou, é novo, é caro e topo de gama... e com isso tu não consegues viver, há algo nisso que te perturba e inquieta... Então, não só te endividas a comprar um melhor, como também a tua casa e os teus móveis têm que estar em concordância, afinal há que manter as aparências... E podes, com tudo isto, dizer que tens, que é teu, que possuis todos estes bens materiais, és proprietário (!) e vives na ilusão de que a verdade é essa, quando a realidade reside no facto de que tudo isso pertence mesmo é a uma qualquer entidade bancária, a quem tu pagas o favor de te emprestar o dinheiro para adquirires todos esses objectos e que te transmitem a sensação da genuína felicidade e bem estar, mesmo que, porventura, nada disso venha algum dia a ser mesmo teu... porque se te acontece uma fatalidade na vida, tudo volta para os bolsos do banco, ou então acabas de saldar as dividas quando estiveres no "terminus" da mesma... aí sim, podes sentir uma vez mais a verdadeira sensação de felicidade, pois conseguiste, como fruto de uma vida inteira, o que deixar aos descendentes (se os houver), até porque foi para isso que trabalhaste durante toda a tua existência... na finalidade não viveste, foste sim escravo dos bens que pretendias adquirir, não trabalhaste para viver, mas viveste para trabalhar, logo cumpriste o teu objectivo de vida...

Depois há que manter o "status" profissional e social, pois se não ganhares muito dinheiro e não acrescentares ao teu nome a designação de "Dr." ou "Eng.", e não conseguires ter mais e mais e mais que os amigos, que os vizinhos e não fores mais... é porque não tens ambição. Sim, porque os outros que se acham na autoridade e direito de te julgar e criticar, irão torcer o nariz se disseres que a tua única ambição é tão simplesmente ser real e verdadeiramente feliz!...


segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

A vida aos pedaços…

Mudei de casa muitas vezes. Vivi numa casa velha, com paredes grossas e tectos de estuque, e num T1, que me pareceu a porta da liberdade. Fui através da imaginação aos locais mais incríveis que possam calcular. Viajei incessantemente por Portugal e não só. Não fiz sky, bungeejumping nem surf, ainda. Li muitos livros e melhorei o meu francês. Criei um blog.


Apaixonei-me várias vezes. Por muitas coisas e por algumas pessoas. Desiludi-me mais do que o que queria. Fiz alguns amigos… Perdi uns poucos. Para sempre. Tive já algumas ameaças de ser processada, já insultei e fui insultada em nome dos direitos dos animais. Não consegui comprar aquilo que mais desejava. Fiz muitas asneiras das quais não me arrependo e fiz uma que não voltaria a fazer. Alterei o meu rumo profissional, que espero de forma definitiva. Ainda não aprendi a amar-me nem a valorizar-me como deve ser. Tive um cão, vários cães, para mim os meus melhores amigos de sempre. Perdi os meus avós maternos. Participei em manifestações. Cometi o maior erro da minha vida e sofri demasiado com ele. Estive muito, muito doente e fiquei boa. Plantei no jardim as minhas flores. Chorei muito e ri ainda mais. Saí de casa dos meus pais, mas continua a ser a minha casa. Fiz mais de 300.000 km de carro. Quase emigrei. Aprendi a cozinhar pratos vegetarianos. Desenvolvi o meu fascínio pela fotografia. Aprendi a gerir o meu próprio dinheiro. Aprendi a merecê-lo. Fui tia e madrinha pela primeira vez. Deixei morrer a roseira branca do quintal e consegui manter a orquídea em flor durante um ano. Percebi o que é realmente importante.


Experimentei muitas coisas só para ter o prazer de as sentir. Perdi a cabeça vezes sem conta. Menti. Fui inocente. Fui crédula. Vi a minha família desmoronar-se de dor e eu com ela. Percebi que há amigos que são muito mais sólidos e importantes que alguma família. Enganei-me. Iludi-me. Cresci, continuo a crescer. Já passei por momentos de algum sofrimento, já me senti a morrer de dores na alma. Dei-me de alma e coração e fui roubada. Nunca me fizeram mal. Despedi-me de gente até nunca mais. Realizei alguns dos meus sonhos. Tornei-me dependente da natureza e de interagir com ela… Continuo a gostar de cinema e de teatro. Adoro ler, muito, sempre. Passei a saber o que é viver com o coração fora do corpo. A música mantém-se o meu maior vício e os concertos ao vivo a minha mais deliciosa carência. Senti falta de gente, lugares e emoções. Percebi que a água é o meu elemento natural. Deslumbrei-me com paisagens e defini onde um dia desejo morrer. Saboreei o mais ensurdecedor dos silêncios e fiquei extasiada com a sensação. Reforcei convicções, lutas, dúvidas e incertezas, umas efémeras outras eternas… Envolvi-me nas mais deliciosas conversas sobre o mistério que é a vida… E assim, vou continuando a caminhar...


domingo, 20 de fevereiro de 2011

movies and words...

Jesse: Um, do you believe in reincarnation?

Céline: Yeah, yeah, it’s interesting.

Jesse: Most people, you know, a lot of people talk about the past lives, and things like that, you know, and even if they don’t believe in it in some specific way, you know, people have some kind of notion of an eternal soul, right?

Céline: Yeah.


Jesse: Okay. Well, this is my thought. Fifty thousand years ago, there are not even a million people on the planet. Ten thousand years ago, there’s like two million people on the planet. Now, there’s between five and six billion people on the planet, right? Now, if we all have our own, like, individual, unique soul, right, where do they all come from? Are modern souls only a fraction of the original souls?. Because if they are, that represents a five thousand-to-one split of each soul in just the last fifty thousand years, which is like a blip in the earth’s time. You know, so, at best, we’re like these tiny fractions of people, you know, walking… I mean, is that why we’re all so scattered? You know, is that why we’re all so specialized?

Céline: Wait a minute, I’m not sure I…I don’t….


Jesse: Hang on, I know, I know, its a totally scattered thought, which is kind of why it makes sense.


Para ti...


...porque quero. porque sim. porque apetece.
Só por isso. Apenas isso e nada mais.