terça-feira, 26 de abril de 2011

Soneto de Devoção

Amo-te tanto meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.
Amo-te enfim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.
Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.
E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.



(Vinícius de Morais)

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Liberdade...

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.

O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...


Fernando Pessoa


sábado, 23 de abril de 2011

Pensava às vezes...

Ele parou a meu lado, cabisbaixo. Parecia mais pequeno ainda. A barba tinha tons azulados na cara dele:
– Pois é… Nisso é que está o mal. Todos vão vivendo, sem se darem conta de nada, sem verem a miséria que há. E, mesmo que não houvesse miséria, serem verem a exploração do homem pelo homem, em que vivem e de que vivem.
Levantou a cabeça para mim, e havia nos seus olhos um tom líquido que me perturbou:
– Tu já pensaste como vivem aqueles pescadores? E a gente do campo? E os operários? Tu já pensaste?
Pensara às vezes.
Jorge de Sena, Sinais de Fogo

quinta-feira, 21 de abril de 2011

"Ultimamente só me saem coisas destas que nem (me) entendo"

Para quê ficar se te vais embora? Porque é que me pedes para não ir quando sabes que também já não estou aqui há muito? Demasiado talvez. Como é que me tentas encontrar se nem eu própria sei onde estou? Sempre fomos assim. Sempre achámos perfeitos os defeitos um do outro. Sempre nos encontrámos nos desencontros do mundo, como se o destino nos empurrasse em direcções opostas. E somos felizes assim. Descobri que eras tu quando comecei a passar mais tempo em ti que em mim. E sou feliz em ti. Não me entendo. Nem tu a mim. Gosto de ti por isso.


Por June

terça-feira, 19 de abril de 2011

Relatividades...

Lembrar-me que inevitavelmente terei que morrer é a mais importante ferramenta que eu alguma vez encontrei para me ajudar a fazer as grandes escolhas na vida. Porque praticamente tudo - todas as nossas expectativas externas, todo o nosso orgulho, todo o nosso medo do embaraço ou fracasso - todas estas coisas simplesmente caem em face da morte, deixando apenas aquilo que é realmente importante. Lembrares-te que mais cedo ou mais tarde vais morrer é a melhor forma que eu conheço de evitar a armadilha de que temos alguma coisa a perder. Nós já estamos nus. Não existe nenhuma razão para não seguirmos o nosso coração.

Steve Jobs

domingo, 17 de abril de 2011

Apenas isto...

É só isto que tenho dentro de mim.
Não sei se quero que o tempo passe rápido ou se pare algures num dia destes.
Só sei que, até lá, parte de mim nem respira... espera, anseia, suspira... questiona a razão de ser das coisas, se existe... um significado, pouco importa...
Alturas há, em mim, em que se pensa no prazer de pensar e outras em que se teima em seguir os desígnios do coração e vivo, no momento, intensamente o momento, agarro-o, não deixo que se perca e suma...

Sinto algures tudo e nada, perco-me na confusão das ideias e procuro novos caminhos, sem medo do que é novo e da mudança. Arrisco, enfim...

Entrego-me aos sentimentos e às emoções, por inteiro, de outra forma não sei ser... Busco nas palavras o aconchego à alma, para que não sinta o pesar da saudade, das pessoas e do tempo.

Existe em mim um espírito livre e solitário, que persiste e resiste... não verga, é essência do que sou, residente da minha autenticidade... E na efemeridade da minha realidade, sei que posso sempre recomeçar.

...É isto que trago dentro de mim, num bocadinho de mim...



sexta-feira, 15 de abril de 2011

Música.

Um amigo dizia-me ontem que não percebe como é que "há pessoas que dizem que não ligam à música". Eu também não. Para mim, música é essencial. E nada substitui aquele prazer de ouvir uma música que nos toca as entranhas, a descoberta de uma música que ainda não conhecíamos e que, ao ouvir pela primeira vez percebemos logo que veio para ficar.
Ou ouvir pela 1762349ª vez aquela música que sempre foi "nossa" e bate sempre da mesma forma, mexendo com os nossos sentidos, a nossa cabeça, a vida que somos durante o tempo em que cantamos aquilo, em feliz desafinar.
Para mim é como respirar. Música é essencial. Todos os dias.

Por Pedro Ribeiro

Para mim, é exactamente a mesma coisa...preciso de música para respirar...


quarta-feira, 13 de abril de 2011

(...) Segundo Nietzsche a vida é um eterno retorno, porque precisamos, temos a obrigação de errar e voltar a errar quantas vezes for necessário desde que não cometamos o primário erro humano de levarmos uma vida dentro de um ciclo de mesmices. Esta teoria de Nietzsche nos convence, em suma, a levarmos uma vida de liberdade, uma vida que valha a pena ser vivida.(...)

(…) Esses sonhos eram belos. Esse é um aspecto que escapou a Freud na sua teoria dos sonhos. O sonho não é apenas uma comunicação, é também uma actividade estética, um jogo da imaginação, e esse jogo tem em si mesmo um valor. O sonho é a prova de que imaginar, sonhar com aquilo que não aconteceu, é uma das mais profundas necessidades do homem. Eis aí a razão do perigo pérfido que se esconde no sonho. Se o sonho não fosse belo, poderia ser rapidamente esquecido.(...)

(…) Olhava para ele com amor, mas temia a noite que ia chegar, tinha medo de seus sonhos. Sua vida se partira em duas. A noite e o dia disputavam o poder sobre ela.(...)

(...) Eu poderia dizer que a vertigem é a embriaguez causada pela própria fraqueza. Temos consciência da nossa própria fraqueza e não queremos resistir à ela, mas nos abandonar à ela. Embriagamo-nos com nossa própria fraqueza, queremos ser mais fracos ainda, queremos desabar em plena rua à vista de todos, queremos estar no chão, ainda mais abaixo do chão. (...)


Milan Kunder, "Insustentável Leveza do Ser".


terça-feira, 12 de abril de 2011

Morte lenta.

Morre lentamente
quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajectos,
quem não muda de marca,
não se arrisca a vestir uma nova cor
ou não conversa com quem não conhece.

Morre lentamente
quem faz da televisão o seu ídolo.
Morre lentamente
quem evita uma paixão,
quem prefere o preto no branco
e os pingos sobre os "is"
em detrimento de um redemoinho de emoções,
justamente as que resgatam o brilho dos olhos,
sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.

Morre lentamente
quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho,
quem não se permite, pelo menos uma vez na vida,
fugir dos conselhos sensatos.

Morre lentamente
quem não viaja,
quem não lê,
quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.

Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio,
quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente
quem passa os dias a queixar-se
da sua má sorte ou da chuva incessante.

Morre lentamente
quem abandona um projecto antes de o iniciar,
não pergunta sobre um assunto que desconhece
ou não responde quando o indagam sobre algo que sabe.

Evitemos a morte em doses suaves,
recordando sempre que estar vivo
exige um esforço muito maior que o simples facto de respirar.
Somente a perseverança fará com que conquistemos
um estágio esplêndido de felicidade.

Pablo Neruda

domingo, 10 de abril de 2011

"Carta para nenhum alguém" ...

Tenho uma página em branco e os olhos pregados nela há três quartos de hora. Queria falar-te de tudo mas acabo por não conseguir falar de nada, como de costume, percebes? Pois, eu também não. Devia ir dormir, desocupar a cabeça do lixo, perdão, de ti, que me vagueias na mente todos os dias sem folgas, mas tenho medo que os pesadelos sejam ainda piores que os filmes que faço acordada, como de costume. Podia estar a fazer inúmeras coisas tão mais úteis, mas continuo a escrevinhar numa página agora menos branca, como se ao escrever as coisas de forma diferente lhes pudesse alterar o sentido. Podia estar contigo, por exemplo. Gostavas de estar comigo agora? Pois, eu também. E estou. Comigo, logicamente. Gostava de te falar no nosso futuro juntos. Mas depois lembro-me que esse não vai existir e então fico sem assunto novamente. Já pensei em falar no passado mas para esse eram precisas demasiadas folhas em branco e, principalmente, demasiada paciência e tempo que não possuo. Para ti, como deves calcular. Já não tenho uma folha em branco, embora os meus olhos continuem pregados nela e os três quartos de hora se tenham estendido por mais dois. Não te falei de tudo nem de nada, falei, apenas porque me apeteceu que me ouvisses, que é como quem diz, chatear-te. Devia ir sonhar (ainda não inventaram verbos para quem tem pesadelos e também não me apetece inventar nenhum as estas horas) contigo mas estou a passar tempo de qualidade comigo. A falar de ti, no entanto. Sádico. Sabes onde me encontrar, não sabes? Pois, eu também não.

By June

Não sei...

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: "Fui eu?"
Deus sabe, porque o escreveu.

Alberto Caeiro

sexta-feira, 8 de abril de 2011

O rebanho é os meus pensamentos...

Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.


Alberto Caeiro, "O Guardador de Rebanhos"

quarta-feira, 6 de abril de 2011

A diferença nas coisas...


... para mim, e cada vez mais, o sexo é apenas a sublimação do amor e não apenas a satisfação de um desejo carnal, fazer sexo apenas para satisfazer instintos primários é tão recompensador como comer um algodão doce... Sabe bem na altura mas depois, assim que acaba, tudo o que fica é um vazio no estômago (e na alma)

...agora, o fazer sexo com a pessoa amada... é libertação transcendental, é superação, é sublimação, é superação... devia ser um acto assoberbado, sôfrego e atropelado de dois corpos que lutam para dar o máximo prazer possível ao outro e para se entregarem da forma mais etérea que for possível e aí, nada bate o sexo incendiado pela paixão, mais do que o sexo maturado por um amor de anos....

É diferente, é igualmente bom, mas perde aquele carácter de urgência que a paixão acarreta consigo e que faz com que cada menear de ancas pareça a última coisa que vamos fazer neste mundo.... não há a urgência do tempo nem tão pouco a imposição de um sentimento maior que nos parece ultrapassar e que não conseguimos controlar, porque a paixão é isso mesmo, é descontrolo e amor maduro já tem muito de racional...
 

segunda-feira, 4 de abril de 2011

..."as palavras e a poesia podem mudar o mundo."...

Não deixes que termine o dia sem teres crescido um pouco, sem teres sido feliz, sem teres aumentado os teus sonhos. Não te deixes vencer pelo desalento. Não permitas que alguém retire o direito de te expressares, que é quase um dever. Não abandones as ânsias de fazer da tua vida algo extraordinário. Não deixes de acreditar que as palavras e a poesia podem mudar o mundo. Aconteça o que acontecer a nossa essência ficará intacta. Somos seres cheios de paixão. A vida é deserto e oásis. Derruba-nos, ensina-nos, converte-nos em protagonistas de nossa própria história. Ainda que o vento sopre contra, a poderosa obra continua: tu podes tocar uma estrofe. Não deixes nunca de sonhar, porque os sonhos tornam o homem livre.” 

Walt Whitman.


Informações úteis...

Está "online", o directório que reúne informação, relativa a todas as Associações e Grupos de Protecção Animal do país...
"Novidades e Actualizações no Blog Directório Animal:

http://directorioanimal.blogspot.com/

Directório de Associações de Animais em Portugal está já online:

https://sites.google.com/site/directorioanimal/
(Em constante actualização de Associações)

Se souber de alguma associação de animais ou grupos de Ajuda Animal que não esteja na lista mande  e.mail para: apeloanimal@gmail.com"

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"Através de uma resolução publicada, esta segunda-feira, em Diário da República, a Assembleia da República (AR) avança um conjunto de recomendações ao Governo com o objectivo de criar uma nova política de controlo das populações de animais errantes, promovendo "o não abate" daqueles que estão nos centros de recolha oficiais." ...

Fonte e desenvolvimentos aqui  - Jornal de Notícias.


domingo, 3 de abril de 2011

Gosto das palavras com sabor...

Quanto a mim gosto das palavras que sabem a terra, a água, aos frutos do Verão, aos barcos no vento; gosto das palavras lisas como os seixos, rugosas como o pão de centeio. Palavras que cheiram a feno e a poeira, a barro e a limão, a resina e a sol. Foi com essas palavras que fiz os poemas. Palavras rumorosas de sangue, colhidas no espaço luminoso da infância, quando o tempo era cheio, redondo, cintilante. As palavras necessárias para conservar ainda os olhos abertos ao mar, ao céu, às dunas, sem vergonha, como se os merecesse, e a inocência pudesse de quando em quando habitar os meus dias. As palavras são a nossa salvação.

Eugénio de Andrade

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Woody Allen ...

Na minha próxima vida, quero viver de trás para frente.
Começar morto, para despachar logo o assunto.
Depois, acordar num lar de idosos e ir-me sentindo melhor a cada dia que passa.
Ser expulso porque estou demasiado saudável, ir receber a reforma e começar a trabalhar, recebendo logo um relógio de ouro no primeiro dia.
Trabalhar 40 anos, cada vez mais desenvolto e saudável, até ser jovem o suficiente para entrar na faculdade, embebedar-me diariamente e ser bastante promíscuo.
E depois, estar pronto para o secundário e para o primário, antes de me tornar criança e só brincar, sem responsabilidades. Aí torno-me um bébé inocente até nascer.

Por fim, passo nove meses flutuando num "spa" de luxo, com aquecimento central, serviço de quarto à disposição e com um espaço maior por cada dia que passa, e depois - "Voilà!" - desapareço num orgasmo.

Woody Allen



quinta-feira, 31 de março de 2011

Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.


Carlos Drummond de Andrade

movies and words...


Alex: Love makes you do crazy things, insane things. Things in a million years you'd never see yourself do. But there you are doing them... can't help it.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Boas notícias, vacina contra a Leishmaniose a ser lançada em Portugal...

"A agência Euronext revelou que Portugal vai ser o primeiro país a receber a recém-desenvolvida vacina contra a Leishmaniose canina, que deverá ser lançada em finais de Junho.
A escolha por Portugal justifica-se, alegadamente, por ser o país com maior incidência da doença em cães. A vacina, patenteada com o nome CaniLeish, deverá posteriormente ser distribuída por Espanha, França, Grécia e Itália. Os direitos pelo registo da vacina foram atribuídos à Virbac, depois dos laboratórios da sua subsidiária Bio Véto Test – BVT a terem criado."

Fonte: Virbac

terça-feira, 29 de março de 2011

Os versos que te fiz

Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem para te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim para te oferecer.

Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder…
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos para te endoidecer!

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda…
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!

Amo-te tanto! E nunca te beijei…
E nesse beijo, amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!

Florbela Espanca

domingo, 27 de março de 2011

Um amor que é melhor e não maior...

(...) "o amor que a une a Karenine é melhor do que o amor que existe entre ela e Tomas. Melhor, e não maior." (...)
 
"Parece-lhe é que o casal humano foi criado de tal forma que o amor do homem e da mulher é a priori de uma natureza inferior àquela que pode ter (pelo menos na melhor das suas variantes) o amor entre o homem e o cão, essa estranha coisa da história do homem que o Criador certamente não previu.
É um amor desinteressado: Teresa não quer nada de Karenine.
Nem sequer exige que ele a ame. Nunca se atormentou com as perguntas que torturam os homens e as mulheres: Gostará ele de mim
? Já terá amado alguém mais do que me ama a mim? Amar-me-á mais do que eu o amo? todas estas interrogações que questionam o amor, que medem, o perscrutam, o inspeccionam, não se arriscarão a matá-lo na casca? se somos incapazes de amar, talvez seja por desejarmos ser amados, ou seja, por querermos alguma coisa do outro (o seu amor), em vez de chegarmos junto dele sem reivindicações e não querermos senão a sua simples presença.
  E ainda há mais uma coisa: Teresa aceitou Karenine tal e qual como ele é, não tentou modifica-lo, deu a sua ausência prévia ao seu universo de cão, não quer confiscar-lho, não tem ciúmes das suas tendências secretas. Se o educou, não foi com a intenção de modifica-lo (como um homem quer sempre modificar a sua mulher e a mulher o seu homem), mas simplesmente para lhe ensinar a língua elementar que havia de permitir-lhes compreenderem-se e viverem os dois juntos.
  E também: o seu amor pelo cão é um amor voluntário, ninguém a obrigou a isso." (...)

Milan Kundera, "Insustentável Leveza do Ser".

sábado, 26 de março de 2011

Os cantos que escondo...

Sabes, tu eras a última pessoa da qual eu queria estar distante. Mas eu sou distante das pessoas. Por mais esforço que faça e voltas que dê, há sempre um canto dentro de mim que eu não consigo partilhar por medo, vergonha ou simplesmente porque "não vale a pena". Há sempre um canto dentro de mim que ainda não aprendeu ser a dois. E tu és o primeiro a reparar. E isso mata-me por dentro porque não te quero fazer sofrer. Eu não quero. Mas, invariavelmente, acabo por fazê-lo. E, se ainda não o fiz verdadeiramente até agora, sei que o vou fazer, mais cedo ou mais tarde. Eu sei disso. E isso não significa que eu te ame menos, apenas significa que estavas errado. Que eu não sou perfeita. Sou humana. E, invariavelmente, erro. Desculpa-me por isso.

Por June

terça-feira, 22 de março de 2011

apenas porque gosto...apenas porque sim...


chilrear dos pássaros



estas ruínas



livraria "Lelo"



tatto's




pisar folhas secas das árvores no Outono





perder-me noite dentro em tertúlias com amigos



ouvir o som das folhas das árvores ao som da brisa de Verão



"Blue Valentine"



livros, muitos...




fotografia com o coração e pouca razão



chocolate e vinho (perfect match)




sonhar, porque é de graça e faz bem à alma.


segunda-feira, 21 de março de 2011

Porque hoje é o dia mundial da poesia e começa a Primavera...

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

Alberto Caeiro


domingo, 20 de março de 2011

movies and words...


Wow. After I jumped, it ocurred to me.
Life is perfect. Life is the best, full of magic,
beauty, opportunity, and television.
And surprises...lot's of surprises, yeah.
And then there's the best stuff, of course.
Better than anything anyone ever made up,
'cause it's real.


quinta-feira, 17 de março de 2011

Sim, a loucura atraí-me...

Já alguém sentiu a loucura vestir de repente o nosso corpo? Já.
E tomar a forma dos objectos? Sim.
E acender relâmpagos no pensamento? Também.
E às vezes parecer ser o fim? Exactamente.
Como o cavalo do soneto de Ângelo de Lima? Tal e qual.
E depois mostrar-nos o que há-de vir muito melhor do que está?
E dar-nos a cheirar uma cor que nos faz seguir viagem sem paragem nem resignação?
E sentirmo-nos empurrados pelos rins na aula de descer abismos e fazer dos abismos descidas de recreio e covas de encher novidade?
E de uns fazer gigantes e de outros alienados?
E fazer frente ao impossível atrevidamente e ganhar-lhe, e ganhar-lhe a ponto do impossível ficar possível?
E quando tudo parece perfeito poder-se ir ainda mais além?
E isto de desencantar vidas aos que julgam que a vida é só uma?
E isto de haver sempre ainda mais uma maneira para tudo?
Tu só, loucura, és capaz de transformar o mundo tantas vezes quantas sejam as necessárias para olhos individuais.
Só tu és capaz de fazer que tenham razão tantas razões que hão-de viver juntas.
Tudo, excepto tu, é rotina peganhenta.
Só tu tens asas para dar a quem tas vier buscar.

Almada Negreiros

quarta-feira, 16 de março de 2011

Esta é a história do Spark.


A história do Spark é igual a tantas outras histórias de infortúnio com que, diariamente, todos nós nos cruzamos, uns de forma mais apaixonada do que outros.

O Spark apareceu, há duas semanas e vindo do nada, numa rua de Esgueira, em Aveiro, onde dormiu um par de dias completamente ao relento até que as pessoas se apercebessem que ele tinha sido ali deixado. Foi, então, alimentado em abundância e foi-lhe saciada a sede que já lhe percorria o corpo e era visível nas costelas salientes e fraquejantes de uma figura que, não há muito tempo, era decerto robusta. Encontrou depois, num alpendre de uma das casas dessa rua, um lugar tranquilo e sossegado onde pernoitou várias noites ao abrigo das intempéries que, aqui e ali, se foram abatendo sobre a cidade.

Até que uma noite, há sensivelmente uma semana, uma criança correu à frente do alpendre onde o Spark descansava. A sua excitação natural perante a situação levou-o a perseguir a criança, ladrando ameaçadoramente, mas sem nunca lhe tocar. O pai, cego de fúria perante uma ameaça que nunca se concretizou, perseguiu velozmente o Spark com intenção de o matar, de preferência com brutalidade. Felizmente não conseguiu e o Spark, em pânico e pressentindo que a sua existência estava em risco, correu, correu e correu... Durante 20km. consecutivos, o Spark correu até as pernas não responderem mais e, finalmente e sentindo-se em paz, repousou no primeiro descampado que encontrou.

Na manhã seguinte, uma simpática senhora acolheu-o numa casa onde ele permaneceu durante alguns dias... mas o Spark não se adaptou às pessoas nem ao lugar e, como ele não era de ninguém e a senhora não podia ficar com ele, sendo que apenas ali estava recolhido temporariamente, a decisão passou por abrir-lhe o portão.

No entanto, os vizinhos, na ânsia de se verem livres daquele incómodo transeunte que passou a rondar os seus portões imaculados, rapidamente se despacharam a chamar o canil municipal, que levou o Spark.


O canil não pode ser o último destino do Spark. A morte não pode ser o castigo para o crime de viver. O Spark não é "apenas mais um". É o Spark.... E o Spark não deve morrer sem conhecer o doce sabor de um dono que o acarinhe e que goste dele pelo que ele é.

Serás tu esse dono?

Para mais informações contactar o Canil Municipal de Aveiro.



sexta-feira, 11 de março de 2011

Se eu tivesse coragem...


Se eu tivesse coragem, andava num avião a jacto e marcava uma grande viagem. Se tivesse coragem enchia uma parede de casa cheia de pétalas de rosas vermelhas. Tinha muitos cães, muitos gatos e viveria na praia. Se eu tivesse coragem fazia gazeta ao emprego, ficava num canto em sossego. Ou então, gastava um ordenado numa única compra, mas nada fútil. Se eu tivesse ainda mais coragem, começava outra vez do nada, voltava a estudar e comprava porta lápis novo e tudo. Teria um filho, comeria um bolo de chocolate de uma vez só...Se eu tivesse coragem dizia ainda, mais vezes o que penso, escreveria um poema, pegava num microfone e começava uma revolução, mesmo que só dentro de mim.... Aprenderia a fazer surf, andar de mota e tocar viola. Mas eu não preciso de coragem. Basta-me um impulso, só não sei bem, por onde começar...


quarta-feira, 9 de março de 2011

Companheiros de viagem.

(...) Os livros não servem para sermos mais "cultos", mais "informados", mais "preparados". Servem para estarem presentes quando tudo o resto está ausente: eles são o refúgio do mundo quando o mundo persiste em avançar do avesso. Eles são o porto que nos aguarda quando a embarcação está perdida ou destruída. Eles são o primeiro e o último brinde aos amigos que não tivemos, aos sonhos que não vieram. E, como na canção francesa, a todas as mulheres que não nos amaram. A vida nem sempre é justa (...).

João Pereira Coutinho, Revista Única, 12.07.2008.

terça-feira, 8 de março de 2011

Tu como sempre...


Trazias contigo como sempre
alvoroço e início...

Sophia de Mello Breyner Andresen

E assim o Homem se fez soberano...

"Logo no começo do Génesis, está escrito que Deus criou o homem para que ele reinasse sobre os pássaros, os peixes e o gado.
É claro que o Génesis é obra do homem e não do cavalo. Ninguém pode ter a certeza absoluta que Deus realmente queria que o homem reinasse sobre todas as outras criaturas. O mais provável  é que o homem tenha inventado Deus para santificar o seu poder sobre a vaca e o cavalo, poder esse que ele usurpara. Sim, porque, na verdade, o direito de matar um veado ou uma vaca é a única coisa que humanidade, no seu conjunto, nunca contestou, mesmo durante as guerras mais sangrentas.
 É um direito que só nos parece natural porque quem está no topo da hierarquia somos nós. Bastava que entrasse mais outro parceiro no jogo, por exemplo um visitante vindo de outro planeta cujo Deus tivesse dito «Tu reinarás sobre as criaturas de todas as outras estrelas», para que todas a evidência do Génesis ficasse logo posta em questão. Talvez depois de um marciano o ter atrelado a uma charrua ou enquanto estivesse a assar no espeto de um habitante da Via Láctea, o homem se lembrasse das costeletas de vitela que costumava comer e apresentasse (tarde de mais) as suas desculpas à vaca." (...)

Milan Kundera, "Insustentável Leveza do Ser".


segunda-feira, 7 de março de 2011

Estados de alma...

Noite fria, tão fria que não me sinto...

mais fria que todas as outras,

vazia, negra, triste e fria.

Quase a nevar; não lá fora, mas dentro de mim...

domingo, 6 de março de 2011

Quando me amei de verdade.

Quando me amei de verdade,
compreendi que em qualquer circunstância,
eu estava no lugar certo, na hora certa, no momento exacto.
E, então, pude relaxar.
Hoje sei que isso tem nome... Auto-estima.

Quando me amei de verdade, pude perceber que a minha angústia,
meu sofrimento emocional, não passa de um sinal de que
estou indo contra as minhas verdades.
Hoje sei que isso é... Autenticidade.

Quando me amei de verdade, parei de desejar que a
minha vida fosse diferente e comecei a ver que tudo o que acontece contribui para o meu crescimento.
Hoje chamo isso de... Amadurecimento.

Quando me amei de verdade, comecei a perceber como é
ofensivo tentar forçar alguma situação ou alguém apenas para realizar aquilo que desejo, mesmo sabendo que não é o momento ou a pessoa não está preparada, inclusive eu mesmo.
Hoje sei que o nome disso é... Respeito.

Quando me amei de verdade, comecei a ver-me livre de tudo
que não fosse saudável ... Pessoas, tarefas, tudo e qualquer coisa que me pusesse para baixo.
De início, minha razão chamou essa atitude de egoísmo.
Hoje sei que se chama... Amor-próprio.

Quando me amei de verdade, deixei de temer o meu tempo livre e desisti de fazer grandes planos, abandonei os projectos megalómanos de futuro.
Hoje faço o que acho certo, o que gosto, quando quero e no meu próprio ritmo.
Hoje sei que isso é... Simplicidade.

Quando me amei de verdade, desisti de querer ter sempre razão e, com isso, errei muito menos vezes.
Hoje descobri a... Humildade.

Quando me amei de verdade, desisti de ficar revivendo
o passado e de me preocupar com o Futuro. Agora, mantenho-me no
presente, que é onde a vida acontece.
Hoje vivo um dia de cada vez. Isso é... Plenitude.

Quando me amei de verdade, percebi que a minha mente
me pode atormentar e me decepcionar. Mas quando eu a coloco ao serviço do meu coração, ela torna-se uma grande e valiosa aliada. 
Tudo isso é.... SABER VIVER ! ! ! ! ! ! ! ! ! !

(Charles Chaplin)

sexta-feira, 4 de março de 2011

Fragmentos...

A minha matéria é feita de sonhos interrompidos, peças fragmentadas, angústias profundas mas de pouca razão, pessoas no coração e actos por impulso. Estranha sensação sentir falta de gente e lugares que não conheci, experiências que não vivi e momentos que já esqueci. Passei por noites acordada, perdi gente que queria e cumpri palavras que não prometi. Desisti por vezes sem tentar, pensei em fugir para não enfrentar, sorrir para não chorar e escrever para me reconciliar... 


(Adaptado B.P.T)

quinta-feira, 3 de março de 2011

O Presente sem passado nem futuro.

Vivo sempre no presente. O futuro, não o conheço. O passado, já o não tenho. Pesa-me um como a possibilidade de tudo, o outro como a realidade de nada. Não tenho esperanças nem saudades. Conhecendo o que tem sido a minha vida até hoje - tantas vezes e em tanto o contrário do que eu a desejara -, que posso presumir da minha vida de amanhã senão que será o que não presumo, o que não quero, o que me acontece de fora, até através da minha vontade? Nem tenho nada no meu passado que relembre com o desejo inútil de o repetir. Nunca fui senão um vestígio e um simulacro de mim.
O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este, há um virar de página e a história continua, mas não o texto.

 Fernando Pessoa, in 'Livro do Desassossego'

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

O amor é uma coisa, a vida é outra.



Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo. 

O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria. 

Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas. 

Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. 
Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo? 

O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. 

O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. 

O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado do quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. 
Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também. 

Miguel Esteves Cardoso, in 'Jornal Expresso' 

domingo, 27 de fevereiro de 2011

No ruído do silêncio...

No ruído do meu silêncio
não me perco,
traço pontos entre linhas imaginárias,
os pontos reais,
os pensamentos incorpóreos,
e entre um ponto e outro
anoto as variantes de silêncio que percebo:
o silêncio do vento parado,
o silêncio do ar respirado,
o silêncio do meu coração,
o silêncio da minha alma.






Pedro Faria Lopes