quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Breve nota acerca de “O caminho para a estupidez “


Sou estúpida; já fiz o caminho. Orgulho-me de fazer parte da maioria de estúpidos que acredita que os outros animais existem pelas suas próprias razões e não para servirem os humanos. Uma das bases para se ser estúpido, aquele primeiro passinho para chegar ao objectivo final é reconhecer quão óbvio é que os outros animais não devem servir para nosso entretenimento. Não, não falo de veganismo! Falo do básico: o entretenimento. Os animais não escolheram estar numa situação que, claramente, lhes é prejudicial, mas nós, regra geral, podemos escolher. Estúpida como sou, se tivesse que escolher, escolheria não ser retirada da minha vida, colocada numa camioneta, transportada sem saber para onde, mutilada, largada num corredor estreito, e depois atirada para um local que me fosse estranho, e de onde não pudesse escapar. Escolheria ainda não ser cravada com arpões de ferro (vários arpões), não sangrar profusamente, não ter dores lancinantes, não ser atacada por um grupo de oito valentes homens, que se atirariam para cima de mim, e me fariam todo o tipo de sevícias que lhes aprouvesse fazerem-me, enquanto eu, assustada, não controlaria sequer as minhas necessidades fisiológicas mais básicas. Em última análise, escolheria não ser sangrada até à morte, enquanto estivesse a sufocar no meu próprio sangue.
A tauromaquia é um exercício vil de dominância de humanos sobre outros animais. Um exercício de subjugação, humilhação, em que ganha sempre aquele que escolhe estar ali. É uma actividade doentia, e que não tem lugar no Séc. XXI. Infelizmente, a História da Humanidade tem inúmeros episódios de maldade de que não se deve orgulhar, e que devem ficar enterrados no passado, debaixo da desculpa de que não sabíamos melhor. Éramos mais ignorantes, talvez…Hoje, queremos corrigir alguns desses erros, mas continuamos a insistir em tapar os olhos ao que de mais óbvio deveríamos ter inscrito em nós: a compaixão, a regra de ouro da ética: “faz aos outros o que gostarias que te fizessem a ti”. O respeito para com quem partilha a Terra connosco deveria ser um valor básico em todos nós. O resultado dessa falta de respeito para com o meio onde vivemos e para com os outros animais está à vista de todos.
Pela nossa parte, continuaremos o nosso trabalho, na esperança de que no futuro, as gerações vindouras possam olhar para os registos  deste tempo e cobrirem-se de vergonha daquilo que os seus antepassados consideravam “estúpido”.
Rita Silva
Activista pelos Direitos dos Animais
Presidente da ANIMAL



domingo, 25 de setembro de 2011

Vivemos em função de tudo, menos da felicidade...


Estava eu a navegar na net quando, por sorte do acaso, me cruzei com um artigo sobre um tema que achei curioso… o nosso estilo de vida. Este artigo foi escrito pelo jornalista João Pereira Coutinho e garanto-vos que vale a pena ler pela simples razão que retrata fielmente a nossa sociedade actual…

"Não tenho filhos e tremo só de pensar. Os exemplos que vejo em volta não aconselham temeridades. Hordas de amigos constituem as respectivas proles e, apesar da benesse, não levam vidas descansadas. Pelo contrário: estão invariavelmente mergulhados numa angústia e numa ansiedade de contornos particularmente patológicos. Percebo porquê. Há cem ou duzentos anos, a vida dependia do berço, da posição social e da fortuna familiar.
Hoje, não. A criança nasce, não numa família mas numa pista de atletismo, com as barreiras da praxe: jardim-escola aos três, natação aos quatro, lições de piano aos cinco, escola aos seis, e um exército de professores, explicadores, educadores e psicólogos, como se a criança fosse um potro de competição.

Eis a ideologia criminosa que se instalou definitivamente nas sociedades modernas: a vida não é para ser vivida – mas construída com sucessos pessoais e profissionais, uns atrás dos outros, em progressão geométrica para o infinito. É preciso o emprego de sonho, a casa de sonho, o maridinho de sonho, os amigos de sonho, as férias de sonho, os restaurantes de sonho.

Não admira que, até 2020, um terço da população mundial esteja a mamar forte no Prozac. É a velha história da cenoura e do burro: quanto mais temos, mais queremos. Quanto mais queremos, mais desesperamos. A meritocracia gera uma insatisfação insaciável que acabará por arrasar o mais leve traço de humanidade. O que não deixa de ser uma lástima.

Se as pessoas voltassem a ler os clássicos, sobretudo Montaigne, saberiam que o fim último da vida não é a excelência, mas sim a felicidade!"

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Talhos vegetarianos - Ideia fantástica!


"A cadeia de lojas holandesa Vegetarian Butcher (Talho Vegetariano em português) é a primeira do género no mundo. Desde as salsichas à carne de galinha, tudo é falso, excepto o sabor que engana até os mais cépticos consumidores de carne. 

O consumo de produtos de origem animal tem baixado ultimamente em vários países e a Holanda é um bom exemplo disso.

Em causa estão, entre outras, questões éticas, como o bem-estar animal, e de saúde, como a transmissão de doenças e outras complicações pela ingestão de produtos animais.

Naturalmente, o mercado reage e adapta-se à necessidade do consumidor, disponibilizando cada vez mais produtos alternativos à dieta tradicional. 

Ficamos à espera do primeiro talho vegetariano em Portugal.


Source: "Fujam Tremoços, Vem aí O Açougueiro Vegetariano! – Ideias de Negócios Rentáveis em 2011" 
Author: Maria Aragao"

domingo, 18 de setembro de 2011

..."Vive-o intensamente até à última gota de sangue. "...


Vive o instante que passa. Vive-o intensamente até à última gota de sangue. É um instante banal, nada há nele que o distinga de mil outros instantes vividos. E no entanto ele é o único por ser irrepetível e isso o distingue de qualquer outro. Porque nunca mais ele será o mesmo nem tu que o estás vivendo. Absorve-o todo em ti, impregna-te dele e que ele não seja pois em vão no dar-se-te todo a ti. Olha o sol difícil entre as nuvens, respira à profundidade de ti, ouve o vento. Escuta as vozes longínquas de crianças, o ruído de um motor que passa na estrada, o silêncio que isso envolve e que fica. E pensa-te a ti que disso te apercebes, sê vivo aí, pensa-te vivo aí, sente-te aí. E que nada se perca infinitesimalmente no mundo que vives e na pessoa que és. Assim o dom estúpido e miraculoso da vida não será a estupidez maior de o não teres cumprido integralmente, de o teres desperdiçado numa vida que terá fim.

Vergílio Ferreira, Conta-Corrente IV 

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Palavras...


Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.


Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.


De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.


(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)


Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.


Alexandre O'Neill

quinta-feira, 8 de setembro de 2011


Escrevi até o princípio da manhã aparecer na janela. O sol a iluminar os olhos dos gatos espalhados na sala, sentados, deitados de olhos abertos. O sol a iluminar o sofá grande, o vermelho ruço debaixo de uma cobertura de pêlo dos gatos. O sol a chegar à escrivaninha e a ser dia nas folhas brancas. Escrevi duas páginas. Descrevi-lhe o rosto, os olhos, os lábios, a pele, os cabelos. Descrevi-lhe o corpo, os seios sob o vestido, o ventre sob o vestido, as pernas. Descrevi-lhe o silêncio. E, quando me parecia que as palavras eram poucas para tanta e tanta beleza, fechava os olhos e parava-me a olhá-la. Ao seu esplendor seguia-se a vontade de a descrever e, de cada vez que repetia este exercício, conseguia escrever duas palavras ou, no máximo, uma frase. Quando a manhã apareceu na janela, levantei-me e voltei para a cama. Adormeci a olhá-la. Adormeci com ela dentro de mim. 

Nunca me tinha apaixonado verdadeiramente. A partir dos dezasseis anos, conheci muitas mulheres, senti algo por todas. Quando lhes lia no rosto um olhar diferente, demorado, deixava-me impressionar e, durante algumas semanas, achava que estava apaixonado e que as amava. Mas depois, o tempo. Sempre o tempo como uma brisa. Uma aragem suave, mas definitiva, a empurrar-me os sentimentos, a deixá-los lá ao fundo e a mostrar-me na distância que eram pequenos, muito pequenos e sem valor. E sempre só a solidão. Sempre. Eu sozinho, a viver. Sozinho, a ver coisas que não iriam repetir-se; sozinho, a ver a vida gastar-se na erosão da minha memória. Sozinho, com pena de mim próprio, ridículo, mas a sofrer mesmo. Nunca me tinha apaixonado verdadeiramente. Muitas vezes disse amo-te, mas arrependi-me sempre. Arrependi-me sempre das palavras.

José Luís Peixoto, Uma Casa na Escuridão

terça-feira, 6 de setembro de 2011

"Talvez tenha chegado a altura de os idealistas fazerem alguma coisa."


(...)"Devemos viver como peregrinos, não como turistas. O turista é egocêntrico, quer algo para ele próprio, bons hotéis restaurantes e lojas. A sua atitude é a exigência, quer sempre mais e melhor [...] O peregrino é humilde, deixa uma pegada leve na Terra, respeita a árvore e agradece-lhe pela sombra e frutos." (...)

(...) "As pessoas das
cidades como Lisboa precisam
abrir o coração à vida selvagem
caminhar na Natureza O fim de
semana devia ter três dias para que
pelo menos um dia pudéssemos
andar a pé no campo Mas não
de carro porque assim não se vê
nada Quando caminhamos vemos
as flores a erva as borboletas as
abelhas Vemos e experienciamos
tudo não é um conhecimento dos
livros." (...)


(...) "Só valorizamos a Natureza se a
experienciarmos se nos tornarmos
parte dela. A Natureza não está só lá
fora nas árvores montanhas rios
e animais Nós somos Natureza. E
ela tem valor intrínseco. Falamos
de direitos humanos mas também
precisamos de falar dos direitos da
Natureza. Os rios têm o direito de se
manterem limpos as florestas têm o
direito a permanecer de pé." (...)


 ‎(...)"Tal como a minha mãe me ensinou a andar na Natureza, gostaria que o mesmo acontecesse na nossa sociedade. Devemos educar as nossas crianças no amor pela Natureza, aprendendo na Natureza e não sobre a Natureza, com livros e computadores. Gostaria de ver os pais a levar os filhos para a Natureza, e a deixá los subir às árvores, escalar montanhas e nadar nos rios." (...)


(...) "Eu e o meu amigo
fomos aconselhados a partir sem
dinheiro porque a paz vem da
confiança e a raiz da guerra é o
medo. Se queremos paz temos de ter
confiança nas pessoas na Natureza
no universo."(...)


(...) "Neste momento
a Humanidade está em guerra com
a Natureza estamos a destruí-la. E
seremos perdedores se vencermos.
A menos que façamos a paz com a
Natureza não poderá haver paz na
Humanidade." (...)


(...) "De que precisamos para ser
felizes?
Aprender uma única palavra
celebração. Temos de celebrar a
vida a Natureza a abundância
humana. As pessoas não são
felizes porque não têm tempo para
celebrar. Estão sempre ocupadas
vivem demasiado depressa." (...)

(...) "O universo é um grande presente para
nós todos."


Satish Kumar, em entrevista ao "Público"
PDF da entrevista completa. 

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

..."Não espere pelo Juízo Final. Ele se realiza todo dia."


Acredite-me, as religiões enganam-se, a partir do momento em que pregam a moral e a fulminam mandamentos. Não é necessário existir Deus para criar a culpabilidade, nem para castigar: para isso, bastam os nossos semelhantes, ajudados por nós mesmos. O senhor falava-me do Juízo Final. Permita-me que ria disso respeitosamente. Posso esperá-lo com tranquilidade: conheci o que há de pior, que é o julgamento dos homens. Para eles, não há circunstâncias atenuantes, mesmo a boa intenção é tida como crime. Ouviu ao menos falar da cela de escarros que um povo criou recentemente para provar que era o maior do mundo? É uma caixa de alvenaria, em que o prisioneiro fica de pé, mas sem poder se mexer. A sólida porta que o encerra em sua concha de cimento chega apenas até a altura do queixo. Vê-se, pois, unicamente o seu rosto, no qual todo guarda que passa escarra à vontade. O prisioneiro, espremido na cela, não se pode limpar, ainda que lhe seja permitido, é bem verdade, fechar os olhos. Pois bem, isto, meu caro, é uma invenção dos homens. Não precisaram de Deus para criar essa obra-prima.

E então? Então, a única utilidade de Deus seria garantir a inocência, mas eu vejo a religião antes de tudo como uma grande empresa de lavanderia, o que aliás ela foi, mas por breve tempo e não se chamava religião. Desde então, falta sabão, andamos com o nariz sujo e nos assoamos mutuamente. Todos culpados, todos castigados, escarremo-nos, e pronto: já para o desconforto. É ver quem escarra primeiro, eis tudo. Vou contar-lhe um grande segredo, meu caro. Não espere pelo Juízo Final. Ele se realiza todo dia.”
Albert Camus – A Queda

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

morreste-me.

Mas a memória guarda-me o teu cheiro, as tuas mãos e o teu sorriso. Olho ao espelho e vejo o teu nariz. Olho para as mãos da mãe e vejo as tuas unhas. Estás em nós e eu estou em ti. Eu jamais seria eu sem a tua presença constante na minha vida. Comparência que eu gostaria de poder prolongar. Terás mesmo partido, avô? Mantenho a memória acesa com pedaços de imagens que me fazem sorrir. Os teus óculos de grilo que colocavas para ler faziam-me sempre rir. Com o teu corpo, apenas enterrei os últimos momentos agonizantes que passaste na cama fria e distante do hospital. Olho para a tua mesa de trabalho e sinto um vazio dilacerante. O teu diário e as tuas canetas ainda estão espalhados. Poderás ainda regressar? Não acredito que já não vou poder estar à tua beira enquanto constróis as tuas geringonças. Ora um banco, ora uma casota para o Piloto, ora um espantalho para a horta… Os meus bolsos estão sedentos dos teus chocolates e rebuçados. Já não refilas comigo por eu te mexer nas ferramentas e não as colocar no sítio. E das boleias que me davas para a escola? Gostava de te ter abraçado e enchido de beijos e te ter dito aos berros que te amava. Por que só me dei conta disto quando a morte te levou? No hospital, nos momentos mais lúcidos, perguntavas-nos: «amanhã estarei melhor?». E eu sem te poder responder, com uma espinho cravado na garganta e a boca seca. Sempre temeste a morte e agora ela levou-te sem dó nem complacência. Pela casa, ainda encontro papéis espalhados com a tua letra. Só a Ti não te vejo mais, nem às tuas expressões faciais de espanto, surpresa e curiosidade. Aquela covinha que fazias na bochecha esquerda e que eu tanto apreciava… E as tuas macaquices? Até na cama do hospital, num dos últimos dias, já com os olhos fechados, ainda fizeste uma macacada com a boca para nos rirmos. Tenho saudades do tempo que não passamos juntos e que eu gostaria de ter passado contigo.

Não acreditavas que o Homem foi à Lua. Agora chegaste finalmente lá.

morreste-me, José Luís Peixoto, 2000

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Sonhei contigo...

Sonhei contigo embora nenhum sonho 
possa ter habitantes tu, a quem chamo 
amor, cada ano pudesse trazer 
um pouco mais de convicção a 
esta palavra. É verdade o sonho 
poderá ter feito com que, nesta 
rarefacção de ambos, a tua presença se 


impusesse - como se cada gesto 
do poema te restituisse um corpo 
que sinto ao dizer o teu nome, 
confundindo os teus 
lábios com o rebordo desta chávena 
de café já frio. Então, bebo-o 
de um trago o mesmo se pode fazer 
ao amor, quando entre mim e ti 
se instalou todo este espaço - 
terra, água, nuvens, rios e 
o lago obscuro do tempo 
que o inverno rouba à transparência 
da fontes. É isto, porém, que 
faz com que a solidão não seja mais 
do que um lugar comum saber 
que existes, aí, e estar contigo 
mesmo que só o silêncio me 
responda quando, uma vez mais 
te chamo.


Nuno Júdice

Turismo que sustenta o horror...

Há coisas que realmente ultrapassam a minha capacidade de compreensão e esta é uma delas; como podem as pessoas dizer que gostam de animais, que são activistas, sensíveis à causa e depois se deslocam a países asiáticos ou africanos, como a Índia, Nepal, Tailândia, Indonésia e afins e se apaixonam por estes países. Isto só me leva a pensar que lá vão sem a mínima consciência do que se passa à sua volta, pois adoram tirar fotografias em cima de elefantes ou camelos em passeios pelas respectivas localidades e acham muita piada aos macacos e ursos que nas ruas fazem habilidades, presos a correntes ou enjaulados...será que nunca pensam no que está por trás de tudo aquilo, daquele negócio sustentado pelo turismo em que animais são sacrificados, mal tratados, negligenciados, explorados para turista ver! 


Poderão dizer que "Ah, se for assim não se visita país algum, porque em todos há exploração animal...". Claro que sim, em todo lado existe gente de bom e mau carácter, mas existem países como os referidos que exploram estes pobres animais selvagens explicitamente para alimentar um turismo de diversão, sustentado no horror e sofrimento, onde não existem leis e sensibilidade alguma para com os direitos dos animais. Países há em que isto não acontece, portanto, minha gente, não sejamos hipócritas, porque para mim isto é comodismo e cinismo... Não argumentem, pelo menos, que gostam e são sensíveis aos direitos dos animais... por uma questão de coerência e inteligência.

Para sustentar os meus argumentos aqui fica um testemunho: assinem, com consciência... - Cruel Training of Nepal Elephants Exposed


...Já para não falar nos animais domésticos, um exemplo na Índia - Save the dogs from the GHMC pound from hell

terça-feira, 30 de agosto de 2011

..."e então é que se envelhece de verdade"...



Uma pessoa envelhece lentamente: primeiro envelhece o seu gosto pela vida e pelas pessoas, sabes, pouco a pouco torna-se tudo tão real, conhece o significado das coisas, tudo se repete tão terrível e fastidiosamente. Isso é também velhice. Quanto já sabe que um corpo não é mais que um corpo. E um homem, coitado, não é mais que um homem, um ser mortal, faça o que fizer… Depois envelhece o seu corpo; nem tudo ao mesmo tempo, não, primeiro envelhecem os olhos, ou as pernas, o estômago, ou o coração. Uma pessoa envelhece assim, por partes. A seguir, de repente, começa a envelhecer a alma: porque por mais enfraquecido e decrépito que seja o corpo, a alma ainda está repleta de desejos e de recordações, busca e deleita-se, deseja o prazer. E quando acaba esse desejo de prazer, nada mais resta que as recordações, ou a vaidade; e então é que se envelhece de verdade, fatal e definitivamente.

Sándor Márai, As velas ardem até ao fim

domingo, 28 de agosto de 2011

The Whistleblower


Filme obrigatório, mas só para quem não possua um estômago sensível...



Ano: 2010
Realizador: Larysa Kondracki
Actores: Rachel Weisz, David Strathairn

Naquilo que me lembro de ser o meu tempo de vida, nunca distingui o cerne do objectivo dos discursos do sr. Kofi Annan e do sr. Ban Ki Moon, os dois "bosses" das Nações Unidas que me lembro de conhecer. E nunca os distingui porque via neles o arquétipo da ideologia vã, carregada de clichés, hipocrisia e muita ineficiência (que, talvez, até seria estudada) perante os diversos desastres que foram assolando o mundo e que, consecutivamente, gritavam por uma intervenção mais eficaz deste organismo.

Lamentavelmente, este é o filme que vem confirmar estes receios e incertezas ao expôr um escândalo do qual, francamente, não tinha qualquer ideia de ter acontecido, provavelmente por ter sido eficazmente encoberto pelas entidades "competentes" e que acaba por pôr ilustrar aquilo que as Nações Unidas não são, ao focar-se no tráfico de mulheres na ex-Jugoslávia do pós-guerra. Uma oficial de polícia competente e séria descobre a careca da podridão e luta para expôr o escândalo, não obstante os óbvios perigos a que se sujeita.

Este é a primeira longa-metragem da realizadora que, na primeira meia hora, exibe um estilo um bocado lento, errático e errante de direcção, o que dá a entender que a protagonista anda um bocado às aranhas de um lado para o outro. No entanto, rapidamente encarrila para um filme obscuro, negro e que expõe em toda a sua plenitude um dos mais problemáticos cancros da sociedade actual, cuja difícil resolução e luta titânica contra os lobbies e poderes vigentes acabam por, num momento climático, levar a protagonista e o espectador a exasperar de frustração perante a dimensão do problema aparentemente irresolúvel que está em jogo.

Podia, em alguns momentos, ser um filme mais cirúrgico, mas a forma gráfica e explícita como abre os olhos para este problema e a coragem que demonstra em chamar os bois pelos nomes é inédita em todo o cinema que já vi e, só por isso, trata-se de um filme absolutamente imprescindível de ser visto e digerido por todos aqueles que gostam de cinema e que têm consciência social, cívica e... humana.

Fonte: Movie Pit

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

"Ando fartinho de Malato, Fernando Mendes e touradas"

"Que a RTP é uma espécie de buraco sem fundo onde o dinheiro desaparece acho que é consensual. Um sorvedouro imparável. Uma catarata de desperdício. O serviço público que presta anda entre a inexistência (salvo raras - e honrosas - excepções) e a mediocridade. Saltita entre as tardes do Fernando Mendes com piadas de algibeira (açúcar, suspensórios, gordo para aqui e para ali...) e as noites intensas de felicidade histriónica de Malato, que ao que parece já foi feliz em quase todos os cantos do Planeta. O Google Earth até está a pensar marcar com bandeirinhas estes locais. O planeta vai parecer a zona de campos de golfe da Quinta da Marinha." (...)

Fonte e desenvolvimento, aqui - "Expresso"

Assino por baixo palavra por palavra...!

...



AS portas; confesso que gosto de as ter abertas, a todas... portas fechadas, dão-me sempre a sensação de claustrofobia...prefiro a liberdade das portas escancaradas...Mas admito, que nos protegem, permitem que ao fim do dia, possas bater com elas e que te refugies das angustias, dos medos, inseguranças, dos problemas das amarguras. Elas têm em si, esse beneficio: separam-nos de tudo e sobretudo, transmitem-nos a possibilidade  de segurança.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

pictures and words...



I'd like to share a revelation that I've had during my time here. It came to me when I tried to classify your species and I realized that you're not actually mammals. Every mammal on this planet instinctively develops a natural equilibrium with the surrounding environment but you humans do not. You move to an area and you multiply and multiply until every natural resource is consumed and the only way you can survive is to spread to another area. There is another organism on this planet that follows the same pattern. Do you know what it is? A virus. Human beings are a disease, a cancer of this planet. You're a plague and we are the cure. 

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Lamentável...

ACTUALIZAÇÃO no dia 29 de Agosto: "ONG é novamente autorizada a entrar em canil para tratar animais" - Desenvolvimento aqui - ANDA - Agência de Notícias de Direitos Animais


--------------------


 É com um grande pesar que informamos que a ABRA foi hoje proibida, pela AGERE, de entrar no Canil Municipal de Braga. Após seis anos de deslocações diárias ao canil para assegurar as condições fundamentais de higiene, alimentação e assistência médico-veterinária, hoje fomos impedidos de aceder às instalações do Canil Municipal para prestar os cuidados habituais aos animais que lá se encontram depositados.

Os passeios diários, os cuidados com a alimentação, os cuidados médico-veterinários, os mimos que muitos deles nunca sentiram em toda a sua vida, deixaram de estar assegurados.

Ontem o canil ficou completamente cheio, com 33 cães (para um total de 24 boxes) e 3 gatos (para um total de 10 boxes). Hoje desconhecemos em que condições se encontram os animais que lá permanecem. Sabemos, contudo, que ao fim-de-semana a AGERE não disponibiliza nenhum funcionário para o canil, pelo que é certo que os animais não terão, sequer, acesso a comida e a água, o que poderá ser letal, tendo em conta as altas temperaturas previstas para o fim-de-semana na região de Braga.

A partir de Segunda-feira os animais que entrarem no canil não terão direito aos cuidados que a ABRA se empenha em proporcionar. Em muitos casos, ter ração disponível não significa serem alimentados, pois muitos animais entram no canil completamente apavorados e não comem por iniciativa própria. Para esses casos, os voluntários levavam arroz com frango para tentar que não sucumbissem a doenças por falta de alimento. O mesmo era feito para os cachorros, que muitas vezes entram sem progenitores e nos próximos dias não vão ter quem os ensine a comer. Os cuidados médico-veterinários básicos deixarão de existir. Não estará também garantida a separação, dentro do canil, de machos e fêmeas ou de animais que não se dêem bem, evitando assim eventuais acasalamentos e lutas. Os animais deixarão de poder ser divulgados pela ABRA, uma vez que não será possível tirar fotografias. Deixarão, portanto, de ter um nome e um rosto, passando a meras estatísticas num país que ainda escolhe o abate como prática para diminuir a sobrepopulação de animais errantes.

Lamentamos que, os/as fomentadores/as das inúmeras polémicas criadas nas redes sociais não tenham ponderado as consequências das suas acções. Não foi a ABRA que perdeu: foram os animais que perderam a alimentação, os cuidados de higiene, o mimo e a atenção diários. Foram eles que perderam a oportunidade de serem divulgados para passarem a estar condenados a um abate certo depois de uma estadia no canil que será, em muitos casos, penosa e sem dignidade.

Porque conhecemos a dura realidade do Canil de Braga antes da existência da ABRA, estamos conscientes do sofrimento diário que a nossa ausência provocará a todos os animais que lá se encontram e a todos os que tiverem o infortúnio de dar entrada no canil no futuro.

Ignoramos, de momento, até quando se manterá a proibição e/ou se a mesma será permanente, uma vez que a AGERE protelou, para o decurso da próxima semana, a decisão final sobre a permanência da ABRA no canil.

Sabemos apenas que, pelos animais, não desistiremos.

Braga, 20 de Agosto de 2011,
A Direcção da ABRA

domingo, 21 de agosto de 2011

Amar...


O acto de amor, por exemplo, é uma confissão. Aí o egoísmo grita, ostensivamente, a vaidade pavoneia-se ou então revela-se aí a verdadeira generosidade.

Albert Camus, A Queda.