segunda-feira, 4 de julho de 2011

Tabacaria




Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.


Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.


Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.


Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.


Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?


Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho genios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordámos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.


Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)


Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, para o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.


(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei que moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)


Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente


Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.


Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.


Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,


Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.


Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.


Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.


Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.


(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheco-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.


Álvaro de Campos

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Como são tratados os animais em Portugal, aos olhos do resto da Europa.

The situation in Portugal

"Come in and find out for yourself why the Algarve has plenty to offer for everybody." That’s what the common travel guides say. "The warm climate the whole year round, a coastline with fantastic beaches make this region an ideal vacation spot for the whole family." But what does it look like behind this perfect idyll ? 

Everything that could disturb the tourism is simply eliminated !

The situation at the Algarve is especially fatal in areas that are stamped by tourism. You’ll find cities with no dogs at all because they’re trapped and killed at once. The Portuguese are not doing this because the tourists shouldn’t be bothered but because they do not want to run into trouble with them, should the dogs misery become obvious and public.

The Portuguese reality is one where animals are killed helter-skelter.

One example: in Portugal, local elections carry weight as legislative elections, and the mayor of a "commune" holds a status of mayor, county commissioner and chief executive of a county combined in one person. Now, such a "Presidente da Camera" is, so to speak, a little king and his party is the ruling party. Thus, all offices are held by this party, as is the office of the veterinary. Prior to the last election, there was a campaign: "Let’s get our city tidy", wherefore the official veterinary had the GNR (National Guard) to round up all dogs of the dock area and surrounding uptown and have them trapped in large nets. It was a witch hunt and after all dogs were caught, they were swatted with cudgels. The specialty about it: this all took place in front of the cameras of the local TV stations.

Old dogs are simply abandoned, puppies are disposed of in the dustbin.

The veterinary is responsible for the particular animal shelter. Neutering is scorned. One accepts that there are regularly puppies, and these are then disposed of in the dustbin as regularly. Even that is not forbidden in Portugal.

Old dogs are thrown on the street hoping that they are run over by a car. To kill on one´s own, they lack of courage and putting to sleep costs.

Hunting dogs are used and cruelly disposed of

The dogs of Portuguese hunters live under extremely wretched circumstances. If they do not "function" well, they are shot at best, but is more likely that they are tormented or tethered up in the blazing sun without water.

Moreover, everything that is a moving target is brought down helter-skelter. There is as good as no wild in Portugal these days, only boar.

Arbitrariness and nepotism rule the community, and there exists enormous cruelty.

Male puppies of the street dogs are mostly taken and are made to live a life of a living alarm system or a hunting dog.

The animal protection law in Portugal

This law is but rudimentary and in no respect accomplishes standards of civilized countries. Even to EU guidelines, action put to the word is but sluggish or not existent. Federal state laws are non-existent. The Presidente da Camera always decides which animal protection law is made use of and in what way. He alone decides if action is taken or not and solely he decides if a dog is withdrawn from an animal teaser. 

The animal protection law does exist, but makes no provision for penalties.

In the domain of farm animals, there are no provisions of the law. It is merely described that no unnecessary harm should be inflicted upon an animal. For further fighting arts with animals, all you need is a license from the administration. The keeping of wild animals is not mentioned in the animal protection law, just as little the duties of owner concerning animal health and their keeping.

Furthermore, the keeping of animals in kennels or in chains undergo no provisions, therefore no minimum size of kennels. Animal transports are not regulated und are carried out as per the effective EU guidelines.

Animal shelters in Portugal 

In Portugal, animal shelters are more of a killing station. To give you an idea, please see these two examples:

A society for the prevention of cruelty to animals which is directed by very dedicated Dutchmen is not liked by the local official veterinary, who has granted the society the maximum of 40 dogs to be kept. He drops by without announcement and kills all dogs on the spot surpassing 40 with the help of the GNR. The operator can do nothing more that to decide which dogs are to be killed.

At an animal shelter, the shelter manager was appointed by the mayor. This job is highly remunerated. The manager himself is a sadist and animal teaser, and nobody dares to stand up against him as he has the best and most widespread connections. Animals are most rarely put to sleep, but the manager does it in his own style by simply letting the animals starve to death. Once, a puppy was passed to the shelter. On demand, it was succinctly told the puppy had already croaked and would lie somewhere in the shed – which was exactly the case.

Countdown for putting down animals

Many municipalities proceed to engage private companies to trap and accommodate dogs – which is quite a remunerative business. These companies often act as a society using the badge "animal protection". They run websites claiming to place the dogs, using pressure mechanisms by having the time left shown until the putting down. One makes money twice that way, that is to say on the one hand cashing the head-money from the administration and on the other hand the commission fee. As to adequate accommodation, medical supply, tests or even extensive vaccinations – that simply doesn’t take place. Only the anti-rabies inoculation is mandatory which is, above all, bestowed by the official veterinary. The society has no costs whatsoever. In contrast to Spain, head-money is paid in Portugal for living dogs as well which allows for a system of double money making.

If the animals die a wretched death in the end because they are sick and the new owners have no knowledge about that – who cares ?

Picture sequence "Breeders" in Portugal

Here’s where a bitch and her puppies "lived" and died.

A commentary by Peter J. Lang

"My name is Peter J. Lang and I live in Portugal for more than 15 years. Because you cannot blink the fact of the dogs misery in this country, I run my privately funded animal protection project "Life" where I try above all to alleviate the misery of the fringe groups. Besides grown-up street dogs, mostly old dogs, casualties as well as puppies get out of line and are not paid attention to in any way. Usually, puppies are put to sleep immediately, heavily pregnant bitches are sterilized by force even if birth is imminent, and private individuals dispose of their puppies by throwing them in the dustbin.

The request for animal protection as well as the respect for life and the necessity to protect life and to not harm creatures has not caught peoples attention by a long shot. Bullfights are broadcasted on television programs regulated by public law.

Because this subject has no attention with the public, the administration is also not sensitive to it. There is no political pressure whatsoever to change or to ameliorate something. As long as there is no extensive movement within the public claiming change, the administration is not going to do anything about the situation. Laws on their own are good for nothing unless there is a certain social consensus. The most important thing is to conscientize the people and to make them understand the meaning of respect for all life. Alas, the people here in the tourism areas are completely tuned in to their personal economic benefit and wealth. Ethical values are hard to convey. This is not only true for the domain of animal protection and nature, but also for hatred against foreigners, radical nationalism, racial hatred, arbitrariness by the police, and many more. Portugal is a country in societal resp. sociocultural upheaval that, after about 25 years membership in the EU, has merely begun."

Give prominence to the misery of animals
Winnie, Tomé and David are an example for the life situation and tribulation of countless dogs in Portugal. Sadly, it is not exemplarily that they have been saved.

Winnie, the dog of the rabbit hutch

Little Winnie has been spotted rather by chance by a german couple at a Portuguese animal protection society. There, he spent the first weeks of his life in a much too small and narrow rabbit hutch. It is very remarkable that this organization received a price in 2010 for the best animal protection society in Portugal !

The couple ransomed the seriously ill puppy and took it to Quinta Eanna, the society "S.O.S. Eine Zukunft für Tiere" of Mr. Peter J. Lang. There it was stated that Winnie suffered from pelvic obliquity and scoliosis as a result of his accommodation in the narrow hutch. Furthermore, a bilateral HD as well as a weak kidney performance, anaemia, Rickettsia (a form of the tick fever), liver problems and bone damages due to a lack of nutrition were diagnosed.

Winnie still has a long way to go. Every day, he needs physiotherapy to build muscles, special food, medication and lots of devotion to overcome the corporal and psychic trauma.

Tomé who was to be strangled

When Tomé tries to bark, out of his throat comes nothing more but croaking. The telling alone of Tom´s martyrdom is very hard to bear. His owner was tired of him and attempted to strangle Tomé. Despite of a pushed in voice box, Tomé would refuse to die. So his owner took him to the animal shelter to have him put down there. By chance, Mr. Langs daughter was on the spot and reacted as fast as lightning. She took Tomé to the animal hospital , and the vet there saved his life by performing a tracheotomy. 

By now, Tomé lives after a quite long hospitalization at the Quinta Eanna and is save there. The scar on his throat is healed and the threads have been pulled out. Still, there are air bubbles under his skin in the connective tissue which are spread all over his body due to the tracheotomy.

But sadly, Tomés future is uncertain. He suffers from a severe tick disease and one can only hope that "Tom-Tom", as he is tenderly called at Quinta Eanna, is again going to win his battle against death.

David, the grotto dog

David was born along with nine siblings in a grotto on a cliff at Lagoa beach. His parents are supposedly the sole survivors of a so-called "cleanup" .

The puppies had to suffer cold, storm, monsoonlike rainfall and temperatures below 10 degreesCelsius in this grotto, and had no one but their mother and themselves to warm them. Also, the puppies were threatened to fall off the cliff. Four male puppies were carried off by Portuguese either to be used as a cheap alarm system for their houses or as hunting dogs. The female puppies were to be drowned in the sea. 

A German living nearby spotted the animal family and called Peter J. Lang who got the remaining puppies out of the grotto and brought them into the save space of Quinta Eanna. Davids parents live still on Lagona beach and are surveyed by "S.O.S. Eine Zukunft für Tiere", the animal protection society. 

David is the only male puppy of the litter who survived, most probably due to his extreme shyness and quickness. 

Today, David is living in a family, together with three dogs. His shyness against humans might not die away, but he leaps for joy and love of life.



quarta-feira, 29 de junho de 2011

BOAS NOTÍCIAS PARA CASCAIS!

Protocolo com a Câmara Municipal de Cascais


Relembramos que, no âmbito do protocolo entre a associação Animais de Rua e a Câmara Municipal de Cascais, a Fundação Francisco de Assis está a esterilizar gratuitamente animais carenciados do concelho de Cascais. Caso proteja animais de rua ou carenciados neste concelho, poderá inscrevê-los no nosso programa de esterilizações através do formulário online do nosso website: http://www.animaisderua.org/candidatura   Muito obrigada! Contamos com a sua ajuda para conseguirmos fazer cada vez mais e melhor, pelos animais! 

A equipa da Animais de Rua  http://www.animaisderua.org/ geral@animaisderua.org  

Por: Animais de Rua

terça-feira, 28 de junho de 2011

Como é que se Esquece Alguém que se Ama?

Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está? 

As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguem antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar. 
É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução. 
Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha. 
Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado. 
O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar. 

Miguel Esteves Cardoso, in 'Último Volume'


segunda-feira, 27 de junho de 2011

O que não se promove nos postais turísticos...




‎...Antes de viajarem para um qualquer país, ao informarem-se sobre os monumentos e outros locais de interesse a visitar, procurem também todo o tipo de  informação disponível sobre a forma como os animais são por lá tratados. Depois, em consciência, decidam se devem ou não apoiar, com o vosso dinheiro e visita, estas deploráveis realidades!... Quanto menos não seja, caros amigos dos animais (os que se dizem seus amantes e protectores, activistas e afins...) , façam-no por uma questão de coerência e sensibilidade...

Muitos são os que se dedicam à "causa" nos seus países de origem e que depois, quando decidem ir passear para um destino estrangeiro, estão-se a "borrifar" para estas questões, o que é, a meu ver, uma hipocrisia... E não me venham com o argumento de que "a ser assim, não se viaja para lado algum"; não passam de desculpas, falsos argumentos...

Claro que existem animais mal tratados e negligenciados em qualquer parte do mundo, pois gente de mau carácter, mal formada e pobre de espírito habita pelo planeta fora, mas também é verdade que felizmente e, por exemplo, na Europa existem alguns países onde as leis de protecção animal (que são efectivamente cumpridas/punitivas), de defesa dos seus direitos e dignidades são uma realidade, bem como governos e autoridades sensíveis à problemática dos maus tratos a animais... São países que considero de primeiro mundo, onde a maioria das mentalidades é evoluída e não têm como prática recorrente deitar fora um animal quando já não "presta", onde o abandono, negligência e maus tratos são recriminados e seriamente punidos ...

Considerem como critério de escolha para o vosso destino de viagem, por exemplo, o facto de um determinado país tratar de igual ou pior modo os seus animais que em Portugal... Averiguem se também lá serão ou não considerados lixo descartável, envenenados, enforcados, escorraçados e depois tomem a vossa decisão em consciência. E informem-se, pois a ignorância dá jeito, mas não serve de desculpa!...


Países situados na Europa onde os animais são tratados como lixo ou pior... - A saber: Espanha, Itália, Grécia, Chipre, Roménia, Bulgária, Croácia, Sérvia, Albânia  Turquia... 
Mais informações, testemunhos, fotos e factos aquiEsdaw - European Society of Dog and Animal Welfare. e Holiday in Greece: A Warning to Animal Lovers e A flair country with a black soul

domingo, 26 de junho de 2011

"Ainda o Sem Abrigo"



Já vos falei dele, sim aqui . Dois anos passados, continua sem se adaptar. Já não anda tão limpo e, a pessoa que o acolheu está quase tão louca como ele. A responsabilidade é grande. Esquece os medicamentos, bebe muito e vagueia sabe-se lá por onde. Depois de regresso, volta sujo, faz zaragatas durante a noite. Numa sociedade estruturada e cautelosa desconfia-se e temem-se os marginais, os aparentemente loucos e os verdadeiros loucos. Queremos segurança e uma cidadania responsável. Questiona-se o que se paga para usufruir de um espaço com certezas de alguma segurança. Sem piedade, também acusei, e não gostei que um louco meio andrajoso se misturasse com as crianças no jardim. Depois, habituei-me a ele. Tolerei e condenei-me também. E agora que está ainda mais degradado, finalmente falei com ele.

Apanhada desprevenida, hesitei, mas... Raios, é apenas uma pessoa  problemática e doente! Subserviente e cheio de tiques, prontificou-se a carregar o meu saco de garrafas vazias até ao ecoponto. Confiei e cedi. Apagou o cigarro que estava a meio e guardou-o na beira do muro para mais tarde o terminar até ao fim. Enquanto se estilhaçavam todas as garrafas em pedaços de vidro, trocámos algumas palavras. O essencial para me aperceber da esperteza da sobrevivência. Na sua aparente loucura, rápido na comunicação, rápido na tarefa, falou-me atabalhoadamente de contratos de trabalho, da remuneração à hora e, à sua maneira fez-se à moedinha.  

 By Mz

S. João




Tenho pena de não ter comigo o belo texto que François Mitterrand dedicou ao S. João do Porto, creio (não tenho a certeza) no "La paille et le grain"*. O antigo presidente francês, que visitava Portugal a convite de Mário Soares, terá percebido, nesse mergulho na noturna multidão tripeira, muito do nosso caráter como povo.

Há anos que não vinha a um S. João. E não me arrependi de ter voltado a experimentar esta noite, que é única no mundo. 

Conheço portugueses que vivem obcecados em fazer visitas turísticas a longínquos destinos da moda, como se disso dependesse o seu currículo cosmopolita, e que confessam nunca ter estado num S. João no Porto. Coitados... 

* Afinal, estava errado: como um atento leitor notou, era no "L'abeille et l'architecte"


Por: Francisco Seixas da Costa



terça-feira, 21 de junho de 2011

"Tudo me interessa e nada me prende."

Tudo me interessa e nada me prende.
Atendo a tudo sonhando sempre; fixo os mínimos gestos faciais de com quem falo, recolho as entoações milimétricas dos seus dizeres expressos;

mas ao ouvi-lo, não o escuto, estou pensando noutra coisa, e o que menos colhi da conversa foi a noção do que nela se disse, da minha parte ou da parte de com quem falei.
Assim, muitas vezes, repito a alguém o que já lhe repeti, pergunto-lhe de novo aquilo a que ele já me respondeu; mas posso descrever, em quatro palavras fotográficas, o semblante muscular com que ele disse o que me não lembra, ou a inclinação de ouvir com os olhos com que recebeu a narrativa que me não recordava ter-lhe feito.
Sou dois, e ambos têm a distância - irmãos siameses que não estão pegados.

O Livro do Desassossego - Fernando Pessoa


domingo, 19 de junho de 2011

Apenas isto...

Ventana sobre el miedo


El hombre desayuna miedo.
El miedo al silencio aturde las calles.
El miedo amenaza.
Si usted ama, tendrá sida.
Si fuma, tendrá cancer.
Si respira, tendrá contaminación.
Si bebe, tendrá accidentes.
Si come, tendrá colesterol.
Si habla, tendrá desempleo.
Si camina, tendrá violencia.
Si piensa, tendrá angustia.
Si duda, tendrá locura.
Si siente, tendrá soledad.


Eduardo Galeano