terça-feira, 18 de outubro de 2011

...

Privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e a lei, privatize-se a nuvem que passa, privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno e de olhos abertos. E finalmente (...) privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas privadas, mediante concurso internacional. Aí se encontra a salvação do mundo... e, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos...


José Saramago, Cadernos de Lanzarote, Diário III

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

As necessidades assimétricas do nosso "novo" mundo...



Este fim de semana assisti a algo que me deixou estupefacta; numa reportagem transmitida pela RTP no âmbito das manifestações do dia 15 de Outubro, querendo dar como exemplo dos rostos por trás dos "Indignados", o caso (infeliz, a meu ver...) de um casal de funcionários públicos (casados, jovens e ambos professores) cujo ordenado mensal de cada um rondava os mil e tal euros aproximadamente. Lamentavam o facto de verem usurpados os seus subsídios de férias e Natal. Note-se quatro mil e tal euros aproximadamente (nas férias e o mesmo no Natal), ou seja, o queixume prendia-se em ver que num só mês não iria entrar naquele agregado familiar uma soma total de quatro mil euros, mas sim e apenas dois mil relativos aos ordenados, não contando portanto com os subsídios e por isto, este casal dizia ter o "futuro adiado"...não tendo também esse dinheiro para colmatar créditos e comprar as prendas de Natal... Ouvia este programa perplexa, a maioria dos portugueses vive com menos de mil euros por mês para fazer face às despesas diárias, compromissos financeiros, educação dos filhos, etc, etc... No dia seguinte e na SIC, vejo uma "Grande Reportagem" sobre crianças moçambicanas; órfãs de pais vítimas do vírus da Sida. Crianças que nada tinham, muitas delas nem mesmo para comer e a certa altura da reportagem, alguém pergunta a uma delas: "o que lhe faltava" ao qual ela com o maior sorriso do mundo, diz: "NADA", não lhe faltava NADA!... 
A disparidade entre estas duas realidades fez-me pensar como tudo na vida é relativo, principalmente em mundos tão diferentes. Como pode alguém dizer, no "nosso  mundo", que dois mil e tal euros por mês não servem para viver?

E porque hoje é o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, aqui fica: Oikos Manifesto 


quinta-feira, 13 de outubro de 2011

BOAS NOTÍCIAS!!!!

A Declaração 26, sobre o controlo das populações de cães e gatos na UE, que se estende ainda à identificação dos animais com chip's, foi aprovada! ...


Estas são óptimas notícias para os animais domésticos da Europa. Resta agora esperar que na prática surta os devidos efeitos.


Detalhes e mais informações aquiEUROGROUP FOR ANIMALS 

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

É mesmo assim...

"As pessoas que eu mais admiro não são famosas, não escreveram um livro, não ganharam um Nobel, não são citadas, nem Googladas. São pessoas como nós, que tem vizinhos, problemas, contas para pagar, trabalhos horríveis, dias insuportáveis, mas que ao fim ao cabo são extremamente reais. Sem máscaras, genuinamente comuns. São aquelas que dão a volta por cima, que sabem abrir uma porta com a mesma facilidade com que fecham outra. Têm coragem. A coragem de viver o dia à dia, mesmo que ele corra mais que nós."

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

A vida que não vivemos...


A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade. A dor é inevitável. O sofrimento é opcional.

Carlos Drummond de Andrade


Foto:(C) Rahee Nerurkar

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

movies and words...


A perfect blossom is a rare thing.
You could spend your life looking for one.
And it would not be a wasted life.

"During spring, cherry blossom (sakura) viewing parties (hanami) and cherry blossom festivals are held all over Japan. Cherry blossom viewing has been a Japanese custom since the 7th century when the aristocrats enjoyed looking at the cherry blossoms and wrote poems. People drink, eat, and sing during the day and night. It is like a picnic.


From late March to early April, sakura go into full bloom all over Japan. The blossom forecast (“sakurazensen” or “cherry blossom front”) is announced each year by the weather bureau, and is watched carefully by those planning hanami as the blossoms only last a week."


"Não sou jornalista. Acrescento sempre palavras ao que vejo. E guardo outras, num recanto do meu egoísmo. Não acreditem no que escrevo, pensem apenas. Porque pode ser verdade.

Quem é que nunca sentiu a surpresa de uma notícia? Ou o susto de uma bomba de Carnaval? Ou encontrou um conhecido num lugar improvável? Ou se queimou, se arrependeu, pisou um buraco? Momentos… momentos… momentos… em que não temos tempo para controlar a parte de dentro do corpo. Era dia 10 de Março. E o maior desses momentos aconteceu. Descíamos a rua do Mosteiro de Drepung, com dezenas de monges, em debates e amizades criadas pelo puro acaso durante todo esse dia.

Um falava sobre a importância da data, outro de liberdade, da vida, de estarem a um passo de ter voz. Apenas voz. Nem cabíamos dentro da pele. Os únicos diferentes do meio, mas no meio. Entre sorrisos vermelhos e vestidos de confiança, faláv… Sinto um braço a puxar-me, a rua bloqueada, e tanta gente. Polícias de choque, militares, camiões, um barulho confuso a impedir o caminho para Lassa. E um braço. A insistir, a puxar-me. Num segundo levou-nos para o outro lado da rua. Vi que era um polícia. Não podem estar aqui. Continuem a andar. Do outro lado os monges, num silêncio cada vez mais afastado. Mais carros, e homens, e carros, e homens. Sem farda. Fecharam as lojas, fecharam as casas. Voltaram. Tiraram as pessoas das casas. Continuem a andar. Ninguém olhava para trás. O medo envolvia os corpos. O que se passa? Responderam-nos: um fogo; exercícios… duas vozes fardadas. Queríamos voltar para trás. Já não conseguíamos ver as caras, apenas roupas vermelhas abafadas por uma força violenta. Armada.

Foi o início. Sabemos que muitos desses monges morreram no final desse dia.
Após quilómetros a andar por estradas de terra não batida, a tentar inventar ruelas que nos levassem a testemunhar a prepotência militar e policial sobre pessoas desarmadas, descobrimos o pior. A nossa impotência. O bloqueio estendia-se ao inimaginável, até nenhum som vindo do Mosteiro se conseguir ouvir. Máquinas fotográficas inspeccionadas ao milímetro, questionados ao milímetro, desde esse instante, controlados ao milímetro. Telefones, internet, conversas, gestos e decisões. Tínhamos sido as únicas testemunhas do início, da violência utilizada sem justificações de defesa, da experiência que demonstraram, da rapidez com que limparam o local de olhos e provas, da postura silenciosa daqueles monges. Os sete dias até à chegada ao Nepal, por terra, a dormir em pequenas aldeias no meio dos Himalaias, ficaram marcados pela tentativa de criar medo. Presos nos quartos, revistados, identificação constantemente exigida na estrada e após a única consulta do e-mail, as horas que passámos na fronteira… Mas não foi o que mais me assustou. Foi a certeza do que vi: o controlo do povo chinês e tibetano levado ao extremo por violência e impunidade; a quantidade sem fim de agentes à paisana ou pessoas que a troco de uns sapatos novos falam do que se passa na casa ao lado; o medo; a propaganda; a confissão assustada de que a falta de direitos humanos ultrapassa o não ter pão. Aqui morre-se por ter opinião.

Tudo o resto que vivi no Tibete ultrapassa um texto legível… por enquanto. Mas tenho voz. E não me esqueço.

Texto: Clara Faria Piçarra
Fotografia (tirada instantes antes): Miguel Sacramento"

quarta-feira, 28 de setembro de 2011


I want to do with you
what spring does with the cherry trees.


Pablo Neruda

Breve nota acerca de “O caminho para a estupidez “


Sou estúpida; já fiz o caminho. Orgulho-me de fazer parte da maioria de estúpidos que acredita que os outros animais existem pelas suas próprias razões e não para servirem os humanos. Uma das bases para se ser estúpido, aquele primeiro passinho para chegar ao objectivo final é reconhecer quão óbvio é que os outros animais não devem servir para nosso entretenimento. Não, não falo de veganismo! Falo do básico: o entretenimento. Os animais não escolheram estar numa situação que, claramente, lhes é prejudicial, mas nós, regra geral, podemos escolher. Estúpida como sou, se tivesse que escolher, escolheria não ser retirada da minha vida, colocada numa camioneta, transportada sem saber para onde, mutilada, largada num corredor estreito, e depois atirada para um local que me fosse estranho, e de onde não pudesse escapar. Escolheria ainda não ser cravada com arpões de ferro (vários arpões), não sangrar profusamente, não ter dores lancinantes, não ser atacada por um grupo de oito valentes homens, que se atirariam para cima de mim, e me fariam todo o tipo de sevícias que lhes aprouvesse fazerem-me, enquanto eu, assustada, não controlaria sequer as minhas necessidades fisiológicas mais básicas. Em última análise, escolheria não ser sangrada até à morte, enquanto estivesse a sufocar no meu próprio sangue.
A tauromaquia é um exercício vil de dominância de humanos sobre outros animais. Um exercício de subjugação, humilhação, em que ganha sempre aquele que escolhe estar ali. É uma actividade doentia, e que não tem lugar no Séc. XXI. Infelizmente, a História da Humanidade tem inúmeros episódios de maldade de que não se deve orgulhar, e que devem ficar enterrados no passado, debaixo da desculpa de que não sabíamos melhor. Éramos mais ignorantes, talvez…Hoje, queremos corrigir alguns desses erros, mas continuamos a insistir em tapar os olhos ao que de mais óbvio deveríamos ter inscrito em nós: a compaixão, a regra de ouro da ética: “faz aos outros o que gostarias que te fizessem a ti”. O respeito para com quem partilha a Terra connosco deveria ser um valor básico em todos nós. O resultado dessa falta de respeito para com o meio onde vivemos e para com os outros animais está à vista de todos.
Pela nossa parte, continuaremos o nosso trabalho, na esperança de que no futuro, as gerações vindouras possam olhar para os registos  deste tempo e cobrirem-se de vergonha daquilo que os seus antepassados consideravam “estúpido”.
Rita Silva
Activista pelos Direitos dos Animais
Presidente da ANIMAL



domingo, 25 de setembro de 2011

Vivemos em função de tudo, menos da felicidade...


Estava eu a navegar na net quando, por sorte do acaso, me cruzei com um artigo sobre um tema que achei curioso… o nosso estilo de vida. Este artigo foi escrito pelo jornalista João Pereira Coutinho e garanto-vos que vale a pena ler pela simples razão que retrata fielmente a nossa sociedade actual…

"Não tenho filhos e tremo só de pensar. Os exemplos que vejo em volta não aconselham temeridades. Hordas de amigos constituem as respectivas proles e, apesar da benesse, não levam vidas descansadas. Pelo contrário: estão invariavelmente mergulhados numa angústia e numa ansiedade de contornos particularmente patológicos. Percebo porquê. Há cem ou duzentos anos, a vida dependia do berço, da posição social e da fortuna familiar.
Hoje, não. A criança nasce, não numa família mas numa pista de atletismo, com as barreiras da praxe: jardim-escola aos três, natação aos quatro, lições de piano aos cinco, escola aos seis, e um exército de professores, explicadores, educadores e psicólogos, como se a criança fosse um potro de competição.

Eis a ideologia criminosa que se instalou definitivamente nas sociedades modernas: a vida não é para ser vivida – mas construída com sucessos pessoais e profissionais, uns atrás dos outros, em progressão geométrica para o infinito. É preciso o emprego de sonho, a casa de sonho, o maridinho de sonho, os amigos de sonho, as férias de sonho, os restaurantes de sonho.

Não admira que, até 2020, um terço da população mundial esteja a mamar forte no Prozac. É a velha história da cenoura e do burro: quanto mais temos, mais queremos. Quanto mais queremos, mais desesperamos. A meritocracia gera uma insatisfação insaciável que acabará por arrasar o mais leve traço de humanidade. O que não deixa de ser uma lástima.

Se as pessoas voltassem a ler os clássicos, sobretudo Montaigne, saberiam que o fim último da vida não é a excelência, mas sim a felicidade!"

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Talhos vegetarianos - Ideia fantástica!


"A cadeia de lojas holandesa Vegetarian Butcher (Talho Vegetariano em português) é a primeira do género no mundo. Desde as salsichas à carne de galinha, tudo é falso, excepto o sabor que engana até os mais cépticos consumidores de carne. 

O consumo de produtos de origem animal tem baixado ultimamente em vários países e a Holanda é um bom exemplo disso.

Em causa estão, entre outras, questões éticas, como o bem-estar animal, e de saúde, como a transmissão de doenças e outras complicações pela ingestão de produtos animais.

Naturalmente, o mercado reage e adapta-se à necessidade do consumidor, disponibilizando cada vez mais produtos alternativos à dieta tradicional. 

Ficamos à espera do primeiro talho vegetariano em Portugal.


Source: "Fujam Tremoços, Vem aí O Açougueiro Vegetariano! – Ideias de Negócios Rentáveis em 2011" 
Author: Maria Aragao"

domingo, 18 de setembro de 2011

..."Vive-o intensamente até à última gota de sangue. "...


Vive o instante que passa. Vive-o intensamente até à última gota de sangue. É um instante banal, nada há nele que o distinga de mil outros instantes vividos. E no entanto ele é o único por ser irrepetível e isso o distingue de qualquer outro. Porque nunca mais ele será o mesmo nem tu que o estás vivendo. Absorve-o todo em ti, impregna-te dele e que ele não seja pois em vão no dar-se-te todo a ti. Olha o sol difícil entre as nuvens, respira à profundidade de ti, ouve o vento. Escuta as vozes longínquas de crianças, o ruído de um motor que passa na estrada, o silêncio que isso envolve e que fica. E pensa-te a ti que disso te apercebes, sê vivo aí, pensa-te vivo aí, sente-te aí. E que nada se perca infinitesimalmente no mundo que vives e na pessoa que és. Assim o dom estúpido e miraculoso da vida não será a estupidez maior de o não teres cumprido integralmente, de o teres desperdiçado numa vida que terá fim.

Vergílio Ferreira, Conta-Corrente IV 

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Palavras...


Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.


Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.


De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.


(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)


Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.


Alexandre O'Neill

quinta-feira, 8 de setembro de 2011


Escrevi até o princípio da manhã aparecer na janela. O sol a iluminar os olhos dos gatos espalhados na sala, sentados, deitados de olhos abertos. O sol a iluminar o sofá grande, o vermelho ruço debaixo de uma cobertura de pêlo dos gatos. O sol a chegar à escrivaninha e a ser dia nas folhas brancas. Escrevi duas páginas. Descrevi-lhe o rosto, os olhos, os lábios, a pele, os cabelos. Descrevi-lhe o corpo, os seios sob o vestido, o ventre sob o vestido, as pernas. Descrevi-lhe o silêncio. E, quando me parecia que as palavras eram poucas para tanta e tanta beleza, fechava os olhos e parava-me a olhá-la. Ao seu esplendor seguia-se a vontade de a descrever e, de cada vez que repetia este exercício, conseguia escrever duas palavras ou, no máximo, uma frase. Quando a manhã apareceu na janela, levantei-me e voltei para a cama. Adormeci a olhá-la. Adormeci com ela dentro de mim. 

Nunca me tinha apaixonado verdadeiramente. A partir dos dezasseis anos, conheci muitas mulheres, senti algo por todas. Quando lhes lia no rosto um olhar diferente, demorado, deixava-me impressionar e, durante algumas semanas, achava que estava apaixonado e que as amava. Mas depois, o tempo. Sempre o tempo como uma brisa. Uma aragem suave, mas definitiva, a empurrar-me os sentimentos, a deixá-los lá ao fundo e a mostrar-me na distância que eram pequenos, muito pequenos e sem valor. E sempre só a solidão. Sempre. Eu sozinho, a viver. Sozinho, a ver coisas que não iriam repetir-se; sozinho, a ver a vida gastar-se na erosão da minha memória. Sozinho, com pena de mim próprio, ridículo, mas a sofrer mesmo. Nunca me tinha apaixonado verdadeiramente. Muitas vezes disse amo-te, mas arrependi-me sempre. Arrependi-me sempre das palavras.

José Luís Peixoto, Uma Casa na Escuridão

terça-feira, 6 de setembro de 2011

"Talvez tenha chegado a altura de os idealistas fazerem alguma coisa."


(...)"Devemos viver como peregrinos, não como turistas. O turista é egocêntrico, quer algo para ele próprio, bons hotéis restaurantes e lojas. A sua atitude é a exigência, quer sempre mais e melhor [...] O peregrino é humilde, deixa uma pegada leve na Terra, respeita a árvore e agradece-lhe pela sombra e frutos." (...)

(...) "As pessoas das
cidades como Lisboa precisam
abrir o coração à vida selvagem
caminhar na Natureza O fim de
semana devia ter três dias para que
pelo menos um dia pudéssemos
andar a pé no campo Mas não
de carro porque assim não se vê
nada Quando caminhamos vemos
as flores a erva as borboletas as
abelhas Vemos e experienciamos
tudo não é um conhecimento dos
livros." (...)


(...) "Só valorizamos a Natureza se a
experienciarmos se nos tornarmos
parte dela. A Natureza não está só lá
fora nas árvores montanhas rios
e animais Nós somos Natureza. E
ela tem valor intrínseco. Falamos
de direitos humanos mas também
precisamos de falar dos direitos da
Natureza. Os rios têm o direito de se
manterem limpos as florestas têm o
direito a permanecer de pé." (...)


 ‎(...)"Tal como a minha mãe me ensinou a andar na Natureza, gostaria que o mesmo acontecesse na nossa sociedade. Devemos educar as nossas crianças no amor pela Natureza, aprendendo na Natureza e não sobre a Natureza, com livros e computadores. Gostaria de ver os pais a levar os filhos para a Natureza, e a deixá los subir às árvores, escalar montanhas e nadar nos rios." (...)


(...) "Eu e o meu amigo
fomos aconselhados a partir sem
dinheiro porque a paz vem da
confiança e a raiz da guerra é o
medo. Se queremos paz temos de ter
confiança nas pessoas na Natureza
no universo."(...)


(...) "Neste momento
a Humanidade está em guerra com
a Natureza estamos a destruí-la. E
seremos perdedores se vencermos.
A menos que façamos a paz com a
Natureza não poderá haver paz na
Humanidade." (...)


(...) "De que precisamos para ser
felizes?
Aprender uma única palavra
celebração. Temos de celebrar a
vida a Natureza a abundância
humana. As pessoas não são
felizes porque não têm tempo para
celebrar. Estão sempre ocupadas
vivem demasiado depressa." (...)

(...) "O universo é um grande presente para
nós todos."


Satish Kumar, em entrevista ao "Público"
PDF da entrevista completa. 

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

..."Não espere pelo Juízo Final. Ele se realiza todo dia."


Acredite-me, as religiões enganam-se, a partir do momento em que pregam a moral e a fulminam mandamentos. Não é necessário existir Deus para criar a culpabilidade, nem para castigar: para isso, bastam os nossos semelhantes, ajudados por nós mesmos. O senhor falava-me do Juízo Final. Permita-me que ria disso respeitosamente. Posso esperá-lo com tranquilidade: conheci o que há de pior, que é o julgamento dos homens. Para eles, não há circunstâncias atenuantes, mesmo a boa intenção é tida como crime. Ouviu ao menos falar da cela de escarros que um povo criou recentemente para provar que era o maior do mundo? É uma caixa de alvenaria, em que o prisioneiro fica de pé, mas sem poder se mexer. A sólida porta que o encerra em sua concha de cimento chega apenas até a altura do queixo. Vê-se, pois, unicamente o seu rosto, no qual todo guarda que passa escarra à vontade. O prisioneiro, espremido na cela, não se pode limpar, ainda que lhe seja permitido, é bem verdade, fechar os olhos. Pois bem, isto, meu caro, é uma invenção dos homens. Não precisaram de Deus para criar essa obra-prima.

E então? Então, a única utilidade de Deus seria garantir a inocência, mas eu vejo a religião antes de tudo como uma grande empresa de lavanderia, o que aliás ela foi, mas por breve tempo e não se chamava religião. Desde então, falta sabão, andamos com o nariz sujo e nos assoamos mutuamente. Todos culpados, todos castigados, escarremo-nos, e pronto: já para o desconforto. É ver quem escarra primeiro, eis tudo. Vou contar-lhe um grande segredo, meu caro. Não espere pelo Juízo Final. Ele se realiza todo dia.”
Albert Camus – A Queda

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

morreste-me.

Mas a memória guarda-me o teu cheiro, as tuas mãos e o teu sorriso. Olho ao espelho e vejo o teu nariz. Olho para as mãos da mãe e vejo as tuas unhas. Estás em nós e eu estou em ti. Eu jamais seria eu sem a tua presença constante na minha vida. Comparência que eu gostaria de poder prolongar. Terás mesmo partido, avô? Mantenho a memória acesa com pedaços de imagens que me fazem sorrir. Os teus óculos de grilo que colocavas para ler faziam-me sempre rir. Com o teu corpo, apenas enterrei os últimos momentos agonizantes que passaste na cama fria e distante do hospital. Olho para a tua mesa de trabalho e sinto um vazio dilacerante. O teu diário e as tuas canetas ainda estão espalhados. Poderás ainda regressar? Não acredito que já não vou poder estar à tua beira enquanto constróis as tuas geringonças. Ora um banco, ora uma casota para o Piloto, ora um espantalho para a horta… Os meus bolsos estão sedentos dos teus chocolates e rebuçados. Já não refilas comigo por eu te mexer nas ferramentas e não as colocar no sítio. E das boleias que me davas para a escola? Gostava de te ter abraçado e enchido de beijos e te ter dito aos berros que te amava. Por que só me dei conta disto quando a morte te levou? No hospital, nos momentos mais lúcidos, perguntavas-nos: «amanhã estarei melhor?». E eu sem te poder responder, com uma espinho cravado na garganta e a boca seca. Sempre temeste a morte e agora ela levou-te sem dó nem complacência. Pela casa, ainda encontro papéis espalhados com a tua letra. Só a Ti não te vejo mais, nem às tuas expressões faciais de espanto, surpresa e curiosidade. Aquela covinha que fazias na bochecha esquerda e que eu tanto apreciava… E as tuas macaquices? Até na cama do hospital, num dos últimos dias, já com os olhos fechados, ainda fizeste uma macacada com a boca para nos rirmos. Tenho saudades do tempo que não passamos juntos e que eu gostaria de ter passado contigo.

Não acreditavas que o Homem foi à Lua. Agora chegaste finalmente lá.

morreste-me, José Luís Peixoto, 2000

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Sonhei contigo...

Sonhei contigo embora nenhum sonho 
possa ter habitantes tu, a quem chamo 
amor, cada ano pudesse trazer 
um pouco mais de convicção a 
esta palavra. É verdade o sonho 
poderá ter feito com que, nesta 
rarefacção de ambos, a tua presença se 


impusesse - como se cada gesto 
do poema te restituisse um corpo 
que sinto ao dizer o teu nome, 
confundindo os teus 
lábios com o rebordo desta chávena 
de café já frio. Então, bebo-o 
de um trago o mesmo se pode fazer 
ao amor, quando entre mim e ti 
se instalou todo este espaço - 
terra, água, nuvens, rios e 
o lago obscuro do tempo 
que o inverno rouba à transparência 
da fontes. É isto, porém, que 
faz com que a solidão não seja mais 
do que um lugar comum saber 
que existes, aí, e estar contigo 
mesmo que só o silêncio me 
responda quando, uma vez mais 
te chamo.


Nuno Júdice

Turismo que sustenta o horror...

Há coisas que realmente ultrapassam a minha capacidade de compreensão e esta é uma delas; como podem as pessoas dizer que gostam de animais, que são activistas, sensíveis à causa e depois se deslocam a países asiáticos ou africanos, como a Índia, Nepal, Tailândia, Indonésia e afins e se apaixonam por estes países. Isto só me leva a pensar que lá vão sem a mínima consciência do que se passa à sua volta, pois adoram tirar fotografias em cima de elefantes ou camelos em passeios pelas respectivas localidades e acham muita piada aos macacos e ursos que nas ruas fazem habilidades, presos a correntes ou enjaulados...será que nunca pensam no que está por trás de tudo aquilo, daquele negócio sustentado pelo turismo em que animais são sacrificados, mal tratados, negligenciados, explorados para turista ver! 


Poderão dizer que "Ah, se for assim não se visita país algum, porque em todos há exploração animal...". Claro que sim, em todo lado existe gente de bom e mau carácter, mas existem países como os referidos que exploram estes pobres animais selvagens explicitamente para alimentar um turismo de diversão, sustentado no horror e sofrimento, onde não existem leis e sensibilidade alguma para com os direitos dos animais. Países há em que isto não acontece, portanto, minha gente, não sejamos hipócritas, porque para mim isto é comodismo e cinismo... Não argumentem, pelo menos, que gostam e são sensíveis aos direitos dos animais... por uma questão de coerência e inteligência.

Para sustentar os meus argumentos aqui fica um testemunho: assinem, com consciência... - Cruel Training of Nepal Elephants Exposed


...Já para não falar nos animais domésticos, um exemplo na Índia - Save the dogs from the GHMC pound from hell

terça-feira, 30 de agosto de 2011

..."e então é que se envelhece de verdade"...



Uma pessoa envelhece lentamente: primeiro envelhece o seu gosto pela vida e pelas pessoas, sabes, pouco a pouco torna-se tudo tão real, conhece o significado das coisas, tudo se repete tão terrível e fastidiosamente. Isso é também velhice. Quanto já sabe que um corpo não é mais que um corpo. E um homem, coitado, não é mais que um homem, um ser mortal, faça o que fizer… Depois envelhece o seu corpo; nem tudo ao mesmo tempo, não, primeiro envelhecem os olhos, ou as pernas, o estômago, ou o coração. Uma pessoa envelhece assim, por partes. A seguir, de repente, começa a envelhecer a alma: porque por mais enfraquecido e decrépito que seja o corpo, a alma ainda está repleta de desejos e de recordações, busca e deleita-se, deseja o prazer. E quando acaba esse desejo de prazer, nada mais resta que as recordações, ou a vaidade; e então é que se envelhece de verdade, fatal e definitivamente.

Sándor Márai, As velas ardem até ao fim

domingo, 28 de agosto de 2011

The Whistleblower


Filme obrigatório, mas só para quem não possua um estômago sensível...



Ano: 2010
Realizador: Larysa Kondracki
Actores: Rachel Weisz, David Strathairn

Naquilo que me lembro de ser o meu tempo de vida, nunca distingui o cerne do objectivo dos discursos do sr. Kofi Annan e do sr. Ban Ki Moon, os dois "bosses" das Nações Unidas que me lembro de conhecer. E nunca os distingui porque via neles o arquétipo da ideologia vã, carregada de clichés, hipocrisia e muita ineficiência (que, talvez, até seria estudada) perante os diversos desastres que foram assolando o mundo e que, consecutivamente, gritavam por uma intervenção mais eficaz deste organismo.

Lamentavelmente, este é o filme que vem confirmar estes receios e incertezas ao expôr um escândalo do qual, francamente, não tinha qualquer ideia de ter acontecido, provavelmente por ter sido eficazmente encoberto pelas entidades "competentes" e que acaba por pôr ilustrar aquilo que as Nações Unidas não são, ao focar-se no tráfico de mulheres na ex-Jugoslávia do pós-guerra. Uma oficial de polícia competente e séria descobre a careca da podridão e luta para expôr o escândalo, não obstante os óbvios perigos a que se sujeita.

Este é a primeira longa-metragem da realizadora que, na primeira meia hora, exibe um estilo um bocado lento, errático e errante de direcção, o que dá a entender que a protagonista anda um bocado às aranhas de um lado para o outro. No entanto, rapidamente encarrila para um filme obscuro, negro e que expõe em toda a sua plenitude um dos mais problemáticos cancros da sociedade actual, cuja difícil resolução e luta titânica contra os lobbies e poderes vigentes acabam por, num momento climático, levar a protagonista e o espectador a exasperar de frustração perante a dimensão do problema aparentemente irresolúvel que está em jogo.

Podia, em alguns momentos, ser um filme mais cirúrgico, mas a forma gráfica e explícita como abre os olhos para este problema e a coragem que demonstra em chamar os bois pelos nomes é inédita em todo o cinema que já vi e, só por isso, trata-se de um filme absolutamente imprescindível de ser visto e digerido por todos aqueles que gostam de cinema e que têm consciência social, cívica e... humana.

Fonte: Movie Pit

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

"Ando fartinho de Malato, Fernando Mendes e touradas"

"Que a RTP é uma espécie de buraco sem fundo onde o dinheiro desaparece acho que é consensual. Um sorvedouro imparável. Uma catarata de desperdício. O serviço público que presta anda entre a inexistência (salvo raras - e honrosas - excepções) e a mediocridade. Saltita entre as tardes do Fernando Mendes com piadas de algibeira (açúcar, suspensórios, gordo para aqui e para ali...) e as noites intensas de felicidade histriónica de Malato, que ao que parece já foi feliz em quase todos os cantos do Planeta. O Google Earth até está a pensar marcar com bandeirinhas estes locais. O planeta vai parecer a zona de campos de golfe da Quinta da Marinha." (...)

Fonte e desenvolvimento, aqui - "Expresso"

Assino por baixo palavra por palavra...!

...



AS portas; confesso que gosto de as ter abertas, a todas... portas fechadas, dão-me sempre a sensação de claustrofobia...prefiro a liberdade das portas escancaradas...Mas admito, que nos protegem, permitem que ao fim do dia, possas bater com elas e que te refugies das angustias, dos medos, inseguranças, dos problemas das amarguras. Elas têm em si, esse beneficio: separam-nos de tudo e sobretudo, transmitem-nos a possibilidade  de segurança.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

pictures and words...



I'd like to share a revelation that I've had during my time here. It came to me when I tried to classify your species and I realized that you're not actually mammals. Every mammal on this planet instinctively develops a natural equilibrium with the surrounding environment but you humans do not. You move to an area and you multiply and multiply until every natural resource is consumed and the only way you can survive is to spread to another area. There is another organism on this planet that follows the same pattern. Do you know what it is? A virus. Human beings are a disease, a cancer of this planet. You're a plague and we are the cure. 

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Lamentável...

ACTUALIZAÇÃO no dia 29 de Agosto: "ONG é novamente autorizada a entrar em canil para tratar animais" - Desenvolvimento aqui - ANDA - Agência de Notícias de Direitos Animais


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 É com um grande pesar que informamos que a ABRA foi hoje proibida, pela AGERE, de entrar no Canil Municipal de Braga. Após seis anos de deslocações diárias ao canil para assegurar as condições fundamentais de higiene, alimentação e assistência médico-veterinária, hoje fomos impedidos de aceder às instalações do Canil Municipal para prestar os cuidados habituais aos animais que lá se encontram depositados.

Os passeios diários, os cuidados com a alimentação, os cuidados médico-veterinários, os mimos que muitos deles nunca sentiram em toda a sua vida, deixaram de estar assegurados.

Ontem o canil ficou completamente cheio, com 33 cães (para um total de 24 boxes) e 3 gatos (para um total de 10 boxes). Hoje desconhecemos em que condições se encontram os animais que lá permanecem. Sabemos, contudo, que ao fim-de-semana a AGERE não disponibiliza nenhum funcionário para o canil, pelo que é certo que os animais não terão, sequer, acesso a comida e a água, o que poderá ser letal, tendo em conta as altas temperaturas previstas para o fim-de-semana na região de Braga.

A partir de Segunda-feira os animais que entrarem no canil não terão direito aos cuidados que a ABRA se empenha em proporcionar. Em muitos casos, ter ração disponível não significa serem alimentados, pois muitos animais entram no canil completamente apavorados e não comem por iniciativa própria. Para esses casos, os voluntários levavam arroz com frango para tentar que não sucumbissem a doenças por falta de alimento. O mesmo era feito para os cachorros, que muitas vezes entram sem progenitores e nos próximos dias não vão ter quem os ensine a comer. Os cuidados médico-veterinários básicos deixarão de existir. Não estará também garantida a separação, dentro do canil, de machos e fêmeas ou de animais que não se dêem bem, evitando assim eventuais acasalamentos e lutas. Os animais deixarão de poder ser divulgados pela ABRA, uma vez que não será possível tirar fotografias. Deixarão, portanto, de ter um nome e um rosto, passando a meras estatísticas num país que ainda escolhe o abate como prática para diminuir a sobrepopulação de animais errantes.

Lamentamos que, os/as fomentadores/as das inúmeras polémicas criadas nas redes sociais não tenham ponderado as consequências das suas acções. Não foi a ABRA que perdeu: foram os animais que perderam a alimentação, os cuidados de higiene, o mimo e a atenção diários. Foram eles que perderam a oportunidade de serem divulgados para passarem a estar condenados a um abate certo depois de uma estadia no canil que será, em muitos casos, penosa e sem dignidade.

Porque conhecemos a dura realidade do Canil de Braga antes da existência da ABRA, estamos conscientes do sofrimento diário que a nossa ausência provocará a todos os animais que lá se encontram e a todos os que tiverem o infortúnio de dar entrada no canil no futuro.

Ignoramos, de momento, até quando se manterá a proibição e/ou se a mesma será permanente, uma vez que a AGERE protelou, para o decurso da próxima semana, a decisão final sobre a permanência da ABRA no canil.

Sabemos apenas que, pelos animais, não desistiremos.

Braga, 20 de Agosto de 2011,
A Direcção da ABRA

domingo, 21 de agosto de 2011

Amar...


O acto de amor, por exemplo, é uma confissão. Aí o egoísmo grita, ostensivamente, a vaidade pavoneia-se ou então revela-se aí a verdadeira generosidade.

Albert Camus, A Queda.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

..."Arre, estou farto de semideuses!"...


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo...


Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda...


Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma covardia!
Não, são todos o Ideal, se os ouço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,


Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?


Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Fernando Pessoa

terça-feira, 16 de agosto de 2011

..."também em frente do sofrimento do mundo nos revoltamos com paixão."...



Foto, retirada do jornal "Globo" - Somália

Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito de verdade que o anima, a procurar uma relação justa com o homem.
Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo é logicamente levado a ver o espantoso sofrimento do mundo. Aquele que vê o fenómeno quer ver todo o fenómeno.
É apenas uma questão de atenção, de sequência e de rigor.
E é por isso que a poesia é uma moral. [...]
Se em frente do esplendor do mundo nos alegramos com paixão, também em frente do sofrimento do mundo nos revoltamos com paixão.
[...]
O facto de sermos feitos de louvor e protesto testemunha a unidade da nossa consciência.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Arte Poética II

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

..."Sei que tudo é definitivo e nada é eterno."...


Debaixo da roupa, estamos todos nus

Estava na Alemanha, num encontro de escritores, e, todas manhãs, no pequeno-almoço do hotel, havia uma mesa de homens portugueses. Em voz alta, acreditando que ninguém os entendia, libertavam-se a contar as suas aventuras com prostitutas polacas e os seus negócios de Mercedes em segunda mão. Num desses dias, um deles apontou para a minha orelha e disse: olha para este, parece que caiu em cima de um monte de pregos.

Noutra ocasião, estava no Luxemburgo, também num encontro de escritores. Preparava-me para almoçar, conversava com um poeta holandês, enquanto dois homens iam servindo salada em todos os pratos da mesa. Um deles chegou perto de mim e, em português, disse ao outro: olha para este animal, tem o braço todo o sujo. Dessa vez, não fiquei em silêncio. Disse-lhe: por acaso, até tenho o braço bastante bem lavado. Mudou de cor.

Não preciso destes dois exemplos breves para saber aquilo que muitas pessoas pensam repetidamente, todos os dias, e que não me dizem por pudor. Desde que cobri o braço esquerdo com tatuagens que sei aquilo que sentem as mulheres com decotes. É muito frequente o olhar das pessoas que estão a falar comigo fugir-lhes para o meu braço. Depois, disfarçam. No caso dos piercings, é mais inconsciente. Estão a falar comigo e, de repente, começam a ter comichão na sobrancelha, exactamente no lugar do meu piercing.

Eu conheço bem a interpretação geral dos piercings (drogado/homossexual) e das tatuagens (drogado/presidiário). À minha frente, já se referiram aos meus piercings dezenas de vezes como "os brinquinhos". Já fui tratado com desprezo por dermatologistas que acharam que eu não tinha o direito de estar no seu consultório, por estas palavras. Já fui analisado por inúmeras mulheres, senhoras, que, como se estivessem a aproximar-se de uma ferida, perguntaram: isso dói?

Eu compreendo essas pessoas, tanto os putanheiros que negoceiam Mercedes, como as senhoras que comem palmiers na confeitaria. Compreendo até os dermatologistas. À sua maneira, cada um deles se sente rejeitado pelas minhas tatuagens e pelos meus piercings. Acreditam que eu não quero ser como eles, não quero ser eles. Têm de responder de alguma maneira a essa rejeição. É-lhes fácil encontrar falta de sentido em furar o corpo com uma agulha e colocar um pendente metálico ou em preencher uma parte da pele com cicatrizes cheias de tinta. Uma pergunta que também me fazem, visivelmente baralhados, é: porquê?

As razões não são simples e são demasiado íntimas. Não tenho de dá-las. Talvez seja necessário ser eu, estar no meu lugar e ter o meu nome para entendê-las por completo. Essa é a natureza da pele. Para nós próprios, a pele é aquilo que nos protege, a fronteira entre a nossa presença e o mundo físico, o aparelho sensível que capta a percepção daquilo com que interagimos. Para os outros, essa mesma pele é a nossa superfície, a aparência. E, já se sabe, a aparência é tão enganadora, a superfície é tão superficial.

Também é comum admirarem-se com o carácter definitivo das tatuagens, perguntarem-me se não tenho medo de me arrepender. Sorrio. Emociono-me com a inocência daqueles que não percebem que tudo é definitivo e deixa marcas. Eu escrevo livros. Sei que tudo é definitivo e nada é eterno.

Sim, dói fazer piercings e tatuagens. Não, não são uma picadinha e não, não são umas cócegas. Para quê fazê-lo? Já respondi, cada um terá as suas próprias razões. São individuais e ninguém deveria sentir-se ameaçado por elas. Quando pedi a opinião da minha mãe, uma mulher que nasceu no início dos anos 40 e que me trouxe ao mundo nos anos 70, ela respondeu: desde que não seja no meu braço, tudo bem. Fiquei feliz por ter a aprovação que realmente me importava. Tudo óptimo, mãe, é no meu braço.

Além disso, a vida. Na escola do meu filho, sou o pai tatuado que passa entre os pais de fato. No supermercado, sou aquele que é vigiado pelo segurança a pouca distância. No barbeiro, sinto o embaraço no momento de me tocarem na orelha. Mas, quando estaciono o carro, os arrumadores tratam-me sempre por tu e ninguém mete conversa comigo quando vou a uma bomba da gasolina às quatro da manhã.

Em casa, tomo banho. A água morna na minha pele. Deslizo as mãos pelo meu corpo. É meu. Estou dentro dele.


José Luís Peixoto, in revista Visão (Outubro 2010)

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

para ti, tu sabes...

sabes...
como desejo que sejas  capaz de esquecer, deixar para trás um passado recente...não queria que te magoasse mais, queria que o deixasses ir...que ficasse fechado, onde tem que ficar ...entristece-me sentir que te corroí tanto, ainda...e que queres largar...mas não te permites...o orgulho...ferido...eu sei...como sei...é quase como um aloquete; que precisa da chave certa para se abrir e libertar...sei que tens a chave, mas que continuas preso ao sentimento que te entorpece a alma...a culpa? é minha, eu sei....mas não posso apagar este ano, o ano que a minha intuição pressentiu....mas não acabou ainda, espero que passe, rápido, não me vou despedir dele com saudade...mas alguém como tu, não poderia ser desiludido por alguém como eu...mas tu sabes, eu sou assim...tão imperfeita (tenho este meu jeito, tão estranho de ser...)...tu sabes....seja como for, ao contrário do que pensas, não é afeição...e tu sabes...estou aqui e espero pelo teu tempo, todo o meu tempo, que será por toda a minha vida se não demorares muito...(tal como alguém dizia...) espero por ti...tu sabes...