terça-feira, 11 de setembro de 2012

maravilhoso desapego.


Não me importa nada que me critiquem. Exactamente como não me importa nada quando me elogiam. Tanto me faz que uma pessoa me elogie como me censure - eu considero aquilo como uma opinião pessoal e não comparo com coisa nenhuma porque eu próprio não tenho opinião pessoal a meu respeito. Não me sinto nem herói, nem criminoso, sinto que vivo, sinto que sou.

- Mestre Agostinho da Silva,

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

O povo canino...

Entra, encontraste a tua casa”
De Saramago para Pepe, Greta e Camões. Os cães de Saramago são três. E os três, por essa ordem, tocaram um dia à sua porta. Cães que vieram corrigir um medo de infância na memória do escritor. Cães que, na realidade, são um único: o imaginário.

O cão é o melhor amigo do homem, Ensinaram-me isso nos tempos da velha instrução primária, com aulas de manhã e folga às quintas. O professor era um homem alto e calvo, grave na sua posição de diretor, mas amigo dos alunos e nada exagerado na disciplina. Punha muito empenho em questões de formação moral, e o cão era um dos seus grandes temas. Uma vez por mês, no mínimo, havia uma lição sentimental sobre as proezas do povo canino: “pilotos” abandonados que regressavam a casa do dono depois de percorrer centenas de quilómetros, abnegados “guadianas” que se lançavam à água para salvar crianças (“pagai o mal com o bem”) das quais, porventura, tinham recebido alguns maus-tratos. Enfim, ideias educativas de há cem anos.
Não me serviram de muito as lições do meu professor. Os cães que fui conhecendo ao longo da minha existência sempre fizeram gala de uma obstinada animadversão em relação a mim. Ou porque cheiravam o medo, ou porque os irritava a falta de jeito com que tentava dissimulá-lo, sempre houve entre os cães e eu, se não a guerra aberta de que só eu saía a perder, pelo menos uma relação de mútua e desconfiada reserva. Recordo com despeito, por exemplo, aquele chucho castanho que vinha a correr pela ruela estreita e sem proteção, arrastando atrás de si uma trela partida, e que, sem aviso, ou talvez por um qualquer gesto brusco que eu fiz, (“o cão só ataca se for provocado”), se é que não mostrei simplesmente temor (“nunca se deve fugir de um cão, é um animal nobre e não ataca pelas costas”), ferrou-me os dentes quando passou por mim e, depois de me arranhar as canelas, deixando-me a escorrer sangue, seguiu o seu caminho, abanando o rabo de pura alegria. Alguns anos mais tarde, andava eu a vaguear, como era meu hábito, pelos arredores da aldeia, entre árvores e canaviais, quando de repente me dou de caras com um cão. Conhecia-o de vista e da má fama que tinha, um gigante de raça indefinida e caráter avesso que não tolerava intrusos no seu território e se divertia quebrando a espinha em menos tempo do que leva a dizê-lo, qualquer bicho que lhe aparecesse pela frente. ((Tal como o chucho castanho, também ele não tinha estado nas aulas do meu professor). Ora bem, quis o acaso, ou a providência, que eu tivesse comigo uma cana grossa e comprida para me apoiar nas subidas e descidas da caminhada. Quando aquele fantasma me apareceu à frente, só tive tempo de levantar a cana num movimento instintivo, com a ponta a um palmo do focinho do malvado, e ali ficámos os dois durante não sei quanto minutos, o dragão aos saltos, fintando e grunhindo, simulando indiferença para depois voltar à carga, eu a suar de pavor, com a voz embargada na garganta, longe de qualquer socorro, abandonado ao negro destino.
Escapei. Por fim, o bruto cansou-se. Depois de me observar longamente e com minúcia, como se me tomasse as medidas, pareceu-lhe que eu não era digno da sua cólera. Dei meia volta e desapareceu num trompicar curto e desdenhoso, sem olhar para trás. Fui-me afastando devagar, às arrecuas, ainda a tremer, até que cheguei a casa e contei o sucedido a uma tia minha que não acreditou na história. Era tal a reputação do monstro que eu dizer que o tinha vencido com uma simples cana deve ter-lhe parecido a mais descarada das mentiras...
A partir de então, e crendo que assim seria para sempre, perdi a confiança na apregoada bondade dos cães, a tal de que o meu velho professor tinha sido um tão convicto propagandista.
Provavelmente nunca pensou que entre os cães e os homens não há grandes diferenças: uns são bons, outros maus, outros nem uma coisa nem outra. Perguntei-me algumas vezes que lição poderia ele dar-nos a respeito de certos canídeos que andam por aí, bem tratados, com pelo brilhante, pata forte e dente afiado, dotados de um profundo conhecimento da anatomia humana e dos modos mais eficazes de danificá-la. Ele que tanto gostava de nos explicar os complementos-circunstanciais-de-lugar, sem saber em que lides nos ia meter...
Passados muitos muitos anos, noutra terra, debaixo de outro céu, um cão apareceu à minha porta. Tinha fome e sede. Demos-lhe água e comida, e deixámo-lo. Voltou poucas horas depois e olhou para nós. Então dissemos-lhe: “Entra, encontraste a tua casa”. Não foi o único. Outros dois, cada um por seu lado, vieram perguntar se a casa também estava aberta para eles. Dissemos-lhes que sim. Chamam-se, por ordem, Pepe, Greta e Camões. São os nossos cães, e está tudo dito.
Não, não está tudo dito. Este homem que não se envergonha de confessar que tinha medo dos cães dedicou parte do seu trabalho de escritor a criar, a inventar, a modelar figuras de cão, como se, já que temia os outros, estivesse na sua mão corrigir os erros da natureza. Assim pôs no mundo da literatura o cão Constante de Levantado do chão, o cão do fio de lã azul da Jangada de pedra, o cão das lágrimas do Ensaio sobre a Cegueira. Esse sobre o qual eu disse que, se o que escrevi caísse no esquecimento, ao menos que de mim restasse a memória de ter dado vida a um cão em que palpitava o coração do melhor dos humanos...

In "Outros Cadernos de Saramago"

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Ansiedade.


Quero compor um poema 
onde fremente 
cante a vida 
das florestas das águas e dos ventos. 

Que o meu canto seja 
no meio do temporal 
uma chicotada de vento 
que estremeça as estrelas 
desfaça mitos 
e rasgue nevoeiros — escancarando sóis! 

Manuel da Fonseca

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Pelos animais...

Se achares por bem, vota, apoia e divulga...O movimento:


Os canis e gatis estão esgotados. Mas abater não é a solução. Apenas os programas CED (capturar, esterilizar, devolver) são eficazes no controlo populacional."(...)

"A ameaça de plástico saltou fronteiras e já está no Atlântico"


"A área de Portugal, Espanha e Andorra não chegam para preencher a mancha de plástico microscópico do oceano. E há outra no Pacífico.

“A era do plástico vai levar ao suicídio da espécie humana.” Sem reservas, o investigador norte-americano Charles J. Moore lança o vaticínio, 15 anos após a descoberta da chamada “Ilha de Plástico do Oceano Pacífico” – uma área de mais de 690 mil quilómetros quadrados, entre a América do Norte e a Ásia, composta por pedaços de plástico de várias dimensões que flutuam à deriva e que matam anualmente mais de um milhão de aves e espécies marinhas. Um problema que já nos bateu a porta e chegou ao Atlântico."(...)


Fonte e desenvolvimento aqui - "iInformação"

"População mundial poderá ter de tornar-se quase vegetariana para lidar com a falta de alimentos"...

"População mundial poderá ter de tornar-se quase vegetariana para lidar com a falta de alimentos - Em 2050 a água disponível para a produção de alimentos só será suficiente para garantir uma alimentação que inclua apenas 5% de calorias provenientes de alimentos de origem animal - cuja produção exige 10 vezes mais água do que a dos alimentos de origem vegetal - em vez dos 20% atuais.

O Instituto Internacional da Água de Estocolmo (Stockholm International Water Institute - SIWI) produziu um relatório sobre as tendências futuras no que toca a disponibilidade de água para a produção de alimentos e as suas consequências para a Humanidade num contexto de uma população em crescimento."(...)

Fonte e desenvolvimento aqui - Naturlink

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

"50 livros que toda a gente deve ler"

Literatura genuína...a contrapor ao que a maioria das livrarias de hoje nos apresentam, "best sellers", manipulados pelo marketing e que qualquer um escreve, por norma por encomenda...mas que escritor de verdade escreve por encomenda?...




"Não há listas perfeitas. Escolher 50 livros (ou 100) implica sempre deixar de fora muitas obras igualmente importantes - ou até mais importantes - que poderiam com toda a justiça estar no lugar destas. Conscientes de que é impossível agradar a gregos e a troianos, pretendemos fazer uma seleção equilibrada, com natural predomínio dos clássicos (essas obras que já passaram o crivo do tempo e entraram no cânone), mas também com algumas apostas pessoais dos colaboradores, escolhas talvez menos óbvias e que esperamos possam corresponder a surpresas e descobertas." (...)


segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Paraíso.


Deixa ficar comigo a madrugada,
para que a luz do Sol me não constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada,
deita sumo de lua e de laranja.

Arranja uma pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça o estertor de uma gaivota...
Crepite, em derredor, o mar de Agosto...
E o outro cheiro, o teu, à minha volta!

Depois, podes partir. Só te aconselho
que acendas, para tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do teu joelho,
entre os lençóis o lume do teu peito...

Podes partir. De nada mais preciso
para a minha ilusão do Paraíso.

David Mourão Ferreira, Infinito Pessoal ou a Arte de Amar.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Não podemos continuar a ser governados pelos mercados!!!

"Pobre não é o que tem pouco, mas sim o que necessita infinitamente muito e deseja, e deseja, mais e mais" 

(José Pepe Mujica, Pres. Uruguai)

Ideologias políticas à parte, este senhor colocou "o dedo na ferida"...só é pena os meios de comunicação social estarem sempre ocupados em vender-nos a economia de mercado como necessidade e solução para todos os nossos problemas e não passarem de vez em quando outras "músicas com outras letras", daquelas que nos fazem reflectir, pensar por nós próprios...



terça-feira, 14 de agosto de 2012

Consultório Veterinário Municipal de Odivelas, um excelente exemplo!...

Embora não seja perfeito, o Consultório Veterinário Municipal de Odivelas, constitui um excelente exemplo para todos os canis municipais deste país...são praticado preços de consultas gerais de medicina veterinária muito acessíveis para munícipes com dificuldades financeiras. Esterilizações a preço de custo, que generalizado às restantes autarquias deste país, contribuiria e muito para o controle de natalidade de animais domésticos... isto permite ainda às pessoas tratar cães e gatos doentes ao invés de os abandonar, por não possuírem recursos económicos para cuidar da saúde dos mesmos...

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Como é possível 15 municípios desejarem tornar a tourada património cultural de Portugal?! É atroz, é cruel, é obsceno.

Tudo o que sentirei é vergonha da minha cultura, se tamanha aberração se tornar património cultural desta terra, isto não é cultura, isto é TORTURA!!!!

Isto é a tourada:

É uma sangueira por todo o terreiro, as damas riem, batem palmas e os touros morrem uns após outros […] as fontes abertas nos flancos dos touros, manando a morte viva que faz andar a cabeça à roda, mas a imagem que se fixa e arrefece os olhos, é a cabeça descaída de um touro, a boca aberta, a língua grossa pendendo, que já não ceifará a erva dos campos, ou só os pastos de fumo do outro mundo dos touros, como haveremos de saber se Inferno ou Paraíso (?). Paraíso será, se justiça houver, nem pode haver Inferno depois do que sofrem estes. 

José Saramago, Memorial do Convento 


O touro entra na praça. Entra sempre, creio. Este veio em alegre correria, como se, vendo aberta uma porta para a luz, para o sol, acreditasse que o devolviam à liberdade. Animal tonto, ingénuo, ignorante também, inocência irremediável, não sabe que não sairá vivo deste anel infernal que aplaudirá, gritará, assobiará durante duas horas, sem descanso. 

O touro atravessa a correr a praça, olha os “tendidos” sem perceber o que acontece ali, volta para trás, interroga os ares, enfim arranca na direcção de um vulto que lhe acena com um capote, em dois segundos acha-se do outro lado, era uma ilusão, julgava investir contra algo sólido que merecia a sua força, e não era mais do que uma nuvem. Em verdade, que mundo vê o touro? 

(…) 

O touro vai morrer. Dele se espera que tenha força suficiente, brandura, suavidade, para merecer o título de nobre. Que invista com lealdade, que obedeça ao jogo do matador, que renuncie à brutalidade, que saia da vida tão puro como nela entrou, tão puro como viveu, casto de espírito como o está de corpo, pois virgem irá morrer. Terei medo pelo toureiro quando ele se expuser sem defesa diante das armas da besta. Só mais tarde perceberei que o touro, a partir de um certo momento, embora continue vivo, já não existe, entrou num sonho que é só seu, entre a vida e a morte. 

José Saramago, Cadernos de Lanzarote, Volume II 


Coberto de sangue, atravessado de lado e lado por lanças, talvez queimado pelas bandarilhas de fogo que no século XVIII se usaram em Portugal, empurrado para o mar para nele perecer afogado, o touro será torturado até à morte. As criancinhas ao colo das mães batem palmas, os maridos, excitados, apalpam as excitadas esposas e, calhando, alguma que não o seja, o povo é feliz enquanto o touro tenta fugir aos seus verdugos deixando atrás de si regueiros de sangue. É atroz, é cruel, é obsceno. Mas isso que importa se Cristiano Ronaldo vai jogar pelo Real Madrid? Que importa isso num momento em que o mundo inteiro chora a morte de Michael Jackson? Que importa que uma cidade faça da tortura premeditada de um animal indefenso uma festa colectiva que se repetirá, implacável, no ano seguinte? É isto cultura? É isto civilização? Ou será antes barbárie? 

José Saramago, Espanha Negra, Junho de 2009 

José Saramago, ribatejano, Prémio Nobel, punha em causa as touradas, que também a ele pareciam bárbaras e cruéis. 


Que dignidade tem esta barbárie?...




quarta-feira, 8 de agosto de 2012

este livro


este livro. passa um dedo pela página, sente o papel
como se sentisses a pele do meu corpo, o meu rosto.

este livro tem palavras. esquece as palavras por
momentos. o que temos para dizer não pode ser dito.

sente o peso deste livro. o peso da minha mão sobre
a tua. damos as mãos quando seguras este livro.

não me perguntes quem sou. não me perguntes nada.
eu não sei responder a todas as perguntas do mundo.

pousa os lábios sobre a página. pousa os lábios sobre
o papel. devagar, muito devagar. vamos beijar-nos.

José Luís Peixoto 

Muito interessante e útil...



Ordem dos Médicos Veterinários,  lança programa para ajudar a encontrar animais perdidos
FindMyPet

- "plataforma online pioneira, desenvolvida pela Ordem dos Médicos Veterinários, que potencia e permite o encontro de animais perdidos – cães e gatos."

Usem e divulguem...

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Peto, a história de um sobrevivente português...



"O Peto apareceu na rua, ainda bebé, e lá viveu durante doze longos anos, comendo dos caixotes do lixo. A certa altura, duas senhoras repararam nele e foram-no protegendo como podiam, dando-lhe comida e água. E ele por ali foi ficando. Foi recolhido duas vezes por pessoas que o voltaram a abandonar porque, afinal, era grande demais ou deixava a casa cheia de pelos. Na sua vida na rua, foi agredido diversas vezes e durante muito tempo teve dificuldade em usar as patas traseiras. Foi também atropelado mais do que uma vez. Chegou a ser esfaqueado na barriga. Tinha Leishmaniose, e por dormir tantos anos ao relento sofria ainda de artrite, passando a ter de tomar medicação quatro vezes ao dia. Foi atacado diversas ocasiões por cães com «donos perigosos» e o seu corpo ficou marcado por várias cicatrizes. Enfrentou duas denúncias de vizinhos, que não o queriam ali. Numa das vezes acabou num canil para ser abatido, como tantos outros cães vadios. Mas foram buscá-lo e ele voltou à sua rua. A sua sorte mudou quando, um dia, Paula, reparou no cão meigo e triste que se arrastava cheio de sangue, terra e pó. Começou por lhe limpar as feridas. Acabou por saber a sua história e seis meses depois, em Novembro de 2005, levou-o para casa e encheu-o de amor. Peto escapou da morte nesse inverno."

Editora Leya .

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Mudança de mentalidades?...


...Precisamos de leite de origem animal, porque a industria do leite e a sua propaganda assim o diz! Informem-se...e não se deixem manipular...
Médicos americanos propõem a exclusão do leite de origem animal do cardápio escolar.

O Comitê de Médicos por uma Medicina Responsável (PCRM)* solicitou que o Departamento de Agricultura "coloque os interesses das crianças acima dos interesses da indústria de laticínios."
A petição foi apresentada no dia 19 de Julho e ainda aguarda resposta.

O Comitê de Médicos por uma Medicina Responsável (PCRM ) apresentou uma petição ao Departamento de Agricultura dos EUA para eliminar o leite animal do cardápio escolar, exigindo que este seja substituído por leite de soja enriquecidos com cálcio ou sucos de frutas.

De acordo com o PCRM, existem pesquisas médicas suficientes para comprovar que o leite não melhora a saúde dos ossos e é a maior fonte de gordura saturada na dieta, gorduras estas que somos orientados a evitar.

Um estudo publicado pela Associação Médica Americana nos Archives of Pediatric & Adolescent Medicine mostrou, este ano, que as crianças selecionadas que consumiram as maiores quantidades de leite, sofreram mais fraturas ósseas do que aquelas que consumiram menos leite. E isto não foi uma surpresa. Estudos anteriores mostram que o consumo leite não melhora a saúde dos ossos ou reduz risco de osteoporose mas, atualmente, cria outros riscos à saúde.

"O leite não faz com que as crianças cresçam mais rápido e mais fortes, mas pode fazer com que elas fiquem acima do peso ideal", disse a diretora de educação nutricional do PCRM, Susan Levin. "Estamos pedindo ao Congresso e ao Departamento de Agricultura (USDA) que coloquem os interesses das crianças acima dos interesses da indústria de laticínios."

O cálcio é um nutriente essencial. Mas as crianças que recebem o cálcio do leite, perdem o beta-caroteno, o ferro e as fibras que estão nos vegetais. As crianças podem conseguir todo o cálcio que necessitam a partir de fontes como: feijão, tofu, brócolis, couve, pães, cereais, e bebidas sem lactose, fortificadas com cálcio, sem nenhum dos malefícios que são associados ao consumo de produtos lácteos.

A petição, apresentada no dia 19 de julho, pede ao Departamento de Agricultura dos EUA que emita um relatório recomendando ao Congresso uma emenda à Lei Nacional de Merendas Escolares, a exclusão do leite de vaca, como um componente necessário, do Programa Nacional de Merenda Escolar.

Um a cada oito americanos é intolerante à lactose. Mais de 1 milhão de crianças norte-americanas são alérgicas ao leite, sendo esta a segunda alergia alimentar mais comum.
O governo federal gasta mais dinheiro em produtos lácteos do que em qualquer outro alimento do programa de merenda escolar.

*O "Comitê de Médicos para uma Medicina Responsável”, é uma organização sem fins lucrativos, sediada em Washington, DC, que promove a dieta estritamente vegetariana, o uso constante da medicina preventiva, o fim das pesquisas científicas com animais, e o uso dos mais elevados padrões de ética e eficácia na investigação. Foi fundada em 1985 pelo psiquiatra Neal D. Barnard da Georgetown University School of Medicine. Hoje são mais de 100 mil médicos associados a ONG e a causa.

Traduzido por Dani Vasques


Lido em "Vegetarianos e veganos - Amor e ética".


sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Adeus Camões.


Morreu Camões, o cão que inspirou Saramago


“Entra, chegaste à tua casa”: assim entrou Camões na vida de José Saramago. No momento em que Manuel Maria Carrilho, ministro da Cultura de Portugal, anunciava a José Saramago que lhe tinha sido concedido o maior galardão literário da língua portuguesa, um cão assustou tanto uma vizinha que ela gritou a pedir ajuda. Os que estávamos em asa saímos para a rua e vimos que o animal feroz era um cachorro assustado com o susto da mulher. O animal entrou pela porta aberta do jardim, mexendo sem jeito as pernas, um pouco desajeitado, feliz por ninguém o maltratar. Quando Saramago apareceu a anunciar que tinha recebido o Prémio Camões, soubemos, soubemo-lo nesse instante, que o cão que tinha encontrado a sua casa não ia ter outro nome que o do grande poeta português. E assim, pelo menos em Lanzarote, Camões foi mencionado centenas de vezes por dia, foi vida e foi homenagem. E este cão doce e nobre, que nunca aprendeu a comer devagar porque até chegar à Casa tinha tido que lutar contra a fome e o abandono, com a sua gravata branca desenhada no pelo negro, que foi o modelo para “O Achado” d' A Caverna, um cão que, como todos os cães que Saramago inventa, é a melhor resposta animal à melhor consciência humana, morreu com todos os seus anos e sempre amado.

Quando o cão chamado Camões regressou a casa depois da morte de José Saramago, não conseguiu aceitar a ausência. Esteve inquieto durante o dia, mas quando chegou a noite e não viu o dono nem na cama nem no sofá que ocupava habitualmente, quando uma e mil vezes percorreu o espaço entre os dois quartos, quando percebeu que o dono já não estava nem ia estar, que isso é a morte, uivou, gritou, rasgou-se numa dor que arranha a alma só de descrevê-la. Não bastaram abraços para consolá-lo, nem palavras carinhosas: ia e vinha de um lugar para outro, numa correria que partia o coração, gemia com uma dor humana. Por isso, um amigo que estava lá em casa e ali passou a noite, intitulou no dia seguinte a sua coluna jornalística: “Camões chora por Saramago”.

Saramago já não poderá chorar por Camões, agora que morreu tão docemente como viveu, tão honestamente animal que apetece aprender com a sua forma de estar na vida. Ou talvez, sem chorar, se encontrem na sensibilidade criada que nada nem ninguém pode destruir, porque tanta vida partilhada, e em companhia tão amável, não pode perder-se. Estão por aí, em livros e memórias, em corações que não se rendem, José Saramago com os seus três cães, Pepe, Greta e Camões, pondo beleza no mundo, imortais na vivência pessoal dos que sabem ver e também sentir.

Pilar del Río

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

..."O amor de um ser humano por outro: isto é, talvez, o mais difícil que já nos foi incumbido."...


«(…) Pouca coisa sabemos. Mas sempre sabemos que nos devemos ater ao que é difícil, e isso é uma certeza que nunca nos abandonará. É bom estar só, porque também a solidão resulta ser difícil. E algo que seja difícil deve ser para nós um motivo suplementar para o levar a cabo.



Também é bom amar, pois o amor é coisa difícil. O amor de um ser humano por outro: isto é, talvez, o mais difícil que já nos foi incumbido. É a prova suprema e derradeira, a tarefa final, ante a qual todas as outras não foram senão um ensaio. Por isso, não sabem nem podem amar ainda os jovens, que em tudo são principiantes. Hão-de aprendê-lo. Com todo o seu ser, com todas as forças reunidas em torno do coração solitário e angustiado que palpita alvoraçadamente – devem aprender a amar. Mas toda a aprendizagem é sempre um longo período de retiro e clausura. Assim, o amor é por muito tempo e até muito longe dentro da vida, solidão, isolamento crescido e aprofundado por aquele que se ama. Amar não é, em princípio, nada que possa significar absorver-se em outro ser, nem entregar nem unir-se a ele. Pois, o que seria uma união entre dois seres inacabados, falhos de luz e liberdade? Amar é antes uma oportunidade, um motivo sublime, que se oferece a cada indivíduo para amadurecer chegar a ser algo em si mesmo; para tornar-se um mundo, todo um mundo, por amor a outro.»

Rainer Maria Rilke, Cartas a Um Jovem Poeta [sétima carta, de 14 de Maio de 1904]


terça-feira, 31 de julho de 2012

Adeus ao champô!




Há quem não consiga passar mais de 24 horas sem champô e há aqueles que não o usam há anos. Os adeptos do No Poo Movement acreditam que os químicos dos champôs prejudicam mais do que ajudam. A solução? Usar apenas água e deixar os óleos naturais do cabelo fazer o “trabalho sujo”.

À primeira vista este método pode parecer uma ideia de um projecto naturalista radical. De facto, falámos com uma dermatologista e um cabeleiro e nenhum dos dois tinha ouvido falar do No Shampoo Movement (No Poo) . Mas os relatos de experiências estão um pouco por toda a web. Há blogues especializados para partilha de experiências e nem as celebridades escapam. Robert Pattinson, Adele, Jessica Simpson e o príncipe Harry já revelaram que o champô não é um habitué nos seus cuidados capilares.

Uma pesquisa simples pelo termos “No Poo” devolve-nos um universo de informações distintas, ainda que existam poucas referências relativas a Portugal. Antes de mais, é importante distinguir No Poo de Low Poo. A rotina No Poo implica que se desista totalmente do champô. As lavagens fazem-se apenas com água sem por isso descuidar a massagem do couro cabeludo. Para a manutenção pode recorrer-se esporadicamente a misturas caseiras de ingredientes como o bicarbonato de sódio ou o vinagre de maçã. Já quem não consegue passar sem champô recorre ao método Low Poo, ou seja, reduz ao máximo o número de lavagens com champô, utilizando preferencialmente um que não seja composto por sulfatos.

Para a dermatologista Vera Monteiro Torres, a distinção entre usar champô com menos frequência ou aboli-lo por completo é muito significativa: “O número de lavagens deve ser adequado a cada pessoa e, se há quem consiga passar uma semana ou mais apenas com uma lavagem, isso não tem problema”. Já quando se trata de recorrer apenas a água a questão muda de figura. “A água desempoeira e remove os vestígios de poluição, mas não remove a gordura que se acumula nas raízes e no couro cabeludo”, explica a dermatologista.

Abdicar do champô é um dos conselhos dados no livro Curly Girls: The Handbook (2001), escrito por Lorraine Massey e Deborah Chiel. As autoras propõem o No Poo como uma alternativa revolucionária para obter caracóis e cachos mais saudáveis e bem definidos. Os adeptos deste método partem do princípio de que o champô remove o sebo capilar, gordura naturalmente segregada pelo couro cabeludo. Assim, para fazer frente à acção agressiva do champô, o couro cabeludo produz ainda mais gordura, o que vai gerar oleosidade extra no cabelo. A fim de remediar este problema, serão precisas lavagens mais frequentes que acabam por estragar as pontas. Vemo-nos então obrigados a usar mais produtos, como condicionadores e máscaras e não tarda estamos presos num ciclo vicioso de produtos e lavagens.

Partilhar experiências
Foi precisamente por se sentir presa nessa rotina que Amber decidiu partilhar no blogue Fulfilled Homemaking a sua experiência: “Ao segundo dia sem o lavar o cabelo ficava demasiado oleoso”. Amber encontrou no método No Poo um desafio, decidiu experimentar e documentar com fotografias o decorrer de seis semanas sem recorrer a champô. O processo não foi fácil - nem rápido. No final da primeira semana o cabelo encontrava-se extremamente oleoso, mas, para a blogger, oleoso é muito diferente de sujo. Durante os banhos passava o cabelo por água, o que eliminaria a sujidade e não os óleos naturais do cabelo. “No fim da segunda semana já consigo ver algumas melhorias que me motivam a continuar”, lê-se no blogue. Um mês depois o cabelo começou a ganhar caracóis e à sexta semana Amber escreveu: “Há anos que o meu cabelo não estava tão bem”. Na fotografia que acompanha este post não há sinais visíveis de excesso de oleosidade. Desde então recorre ocasionalmente a uma mistura de bicarbonato e extracto de melaleuca (tea tree). Actualmente, encontrar uma embalagem de champô em casa de Amber é tarefa impossível: o No Poo conquistou toda a família.

Antes de deixar o champô, a rotina de Amber levava-a a lavar o cabelo diariamente e é possível que isso tenha contribuído para a produção exagerada de oleosidade que a incomodava. “Nalgumas pessoas lavar a cabeça com demasiada frequência pode levar a um aumento da secreção sebácea: quanto mais se lava, mais sebo é produzido”, afirma Vera Torres Monteiro, dermatologista. Nestes casos, controlar o número de lavagens pode ajudar, mas, para a especialista, abdicar do champô não trará benefícios aparentes: “uma higiene e lavagem adequadas trazem saúde ao cabelo”. Também o cabeleiro Eduardo Beauté partilha deste ponto de vista. Para ele, “o cabelo deve ser lavado quando precisa. Mesmo que não seja diariamente, passado uns dias vai ser necessário”.

Champôs há muitos
A palavra champô vem do Hindi champo, que significa massagem. O termo foi depois aplicado no século XIX a um tratamento de limpeza do couro cabeludo. Mas o champô como o conhecemos hoje só se democratizou nos anos 1930. Desde então as fórmulas mudaram mas alguns componentes mantiveram-se. “A sociedade e o mundo evoluíram constantemente e a oferta mudou. O No Poo parece ter sido inventado por pessoas que não conhecem a qualidade de alguns produtos que há no mercado. Claro que há champôs agressivos, mas não faz sentido radicalizar”, conclui Eduardo Beauté.

Os dois especialistas concordam que, em questões de saúde e higiene capilar, o segredo está na qualidade dos produtos a usar. “Existem alternativas mais suaves e até naturais”, afirma Eduardo Beauté. Numa grande superfície é possível comprar qualquer um dos tipos, basta saber o que procurar. Vera Torres Monteiro explica: “Os champôs mais alcalinos contêm na sua composição um detergente (lauril sulfato de sódio) que os pode tornar mais agressivos para o cabelo. Mas também há os anfotéricos que são mais suaves graças a uma substância, a Cocamide Propil Betaína, e quase não têm detergência”.

“Com os produtos que temos hoje no mercado, abdicar do champô é um grande retrocesso”, conclui Eduardo Beauté. Para o cabeleireiro, o No Poo não se apresenta como uma boa alternativa: “Imagine-se o que seria tomar banho só com água, ou uma vez por semana. Não é higiénico, é um disparate”. Já a dermatologista considera que seriam necessários alguns anos de investigação para desmistificar cientificamente a eficácia deste método, mas que, até ao momento, não há razão para acreditar que este “andar para trás” seja preferível. Ainda assim, é de prever que os sites dedicados a este fenómeno continuem a propagar-se e com eles o número de pessoas dispostas a experimentar uma vida livre de champô.

Fonte: Jornal "Público online"