segunda-feira, 4 de março de 2013

Sem palavras...

"Nunca uma situação se desenhou assim para o povo português: não ter futuro, não ter perspetivas de vida social, cultural, económica, e não ter passado porque nem as competências nem a experiência adquiridas contam já para construir uma vida. Se perdemos o tempo da formação e o da esperança foi porque fomos desapossados do nosso presente. Temos apenas, em nós e diante de nós, um buraco negro.
O «empobrecimento» significa não ter aonde construir um fio de vida, porque se nos tirou o solo do presente que sustenta a existência. O passado de nada serve e o futuro entupiu.
O poder destrói o presente individual e coletivo de duas maneiras: sobrecarregando o sujeito de trabalho, de tarefas inadiáveis, preenchendo totalmente o tempo diário com obrigações laborais; ou retirando-lhe todo o trabalho, a capacidade de iniciativa, a possibilidade de investir, empreender, criar. Esmagando-o com horários de trabalho sobre-humanos ou reduzindo a zero o seu trabalho.
O Governo utiliza as duas maneiras com a sua política de austeridade obsessiva: por exemplo, mata os professores com horas suplementares, imperativos burocráticos excessivos e incessantes: stresse, depressões, patologias borderline enchem os gabinetes dos psiquiatras que os acolhem. É o massacre dos professores. Em exemplo contrário, com os aumentos de impostos, do desemprego, das falências, a política do Governo rouba o presente de trabalho (e de vida) aos portugueses (sobretudo jovens).
O presente não é uma dimensão abstrata do tempo, mas o que permite a consistência do movimento no fluir da vida. O que permite o encontro e a intensificação das forças vivas do passado e do futuro - para que possam irradiar no presente em múltiplas direções. Tiraram-nos os meios desse encontro, desapossaram-nos do que torna possível a afirmação da nossa presença no presente do espaço público.
Atualmente, as pessoas escondem-se, exilam-se, desaparecem enquanto seres sociais. O empobrecimento sistemático da sociedade está a produzir uma estranha atomização da população: não é já o «cada um por si», porque nada existe no horizonte do «por si». A sociabilidade esboroa-se aceleradamente, as famílias dispersam-se, fecham-se em si, e para o português o «outro» deixou de povoar os seus sonhos - porque a textura de que são feitos os sonhos está a esfarrapar-se. Não há tempo (real e mental) para o convivio. A solidariedade efetiva não chega para retecer o laço social perdido. O Governo não só está a desmantelar o Estado social, como está a destruir a sociedade civil.
Um fenómeno, propriamente terrível, está a formar-se: enquanto o buraco negro do presente engole vidas e se quebram os laços que nos ligam às coisas e aos seres, estes continuam lá, os prédios, os carros, as instituições, a sociedade. Apenas as correntes de vida que a eles nos uniam se romperam. Não pertenço já a esse mundo que permanece, mas sem uma parte de mim. O português foi expulso do seu próprio espaço continuando, paradoxalmente, a ocupá-lo. Como um zombie: deixei de ter substância, vida, estou no limite das minhas forças - em vias de me transformar num ser espetral. Sou dois: o que cumpre as ordens automaticamente e o que busca ainda uma réstia de vida para os seus, para os filhos, para si.
Sem presente, os portugueses estão a tornar-se os fantasmas de si mesmos, à procura de reaver a pura vida biológica ameaçada, de que se ausentou toda a dimensão espiritual. É a maior humilhação, a fantomatização em massa do povo português. Este Governo transforma-nos em espantalhos, humilha-nos, paralisa-nos, desapropria-nos do nosso poder de ação. É este que devemos, antes de tudo, recuperar, se queremos conquistar a nossa potência própria e o nosso país."

José Gil na revista Visão.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

A todos os cães... principalmente aos que vivem no abandono...

Puka
Quando morre um cão, há uma tristeza específica. É fina e espeta-se no pensamento. Aleija só de imaginar. Deriva da pena de não termos sido capazes de estar à altura da pureza, da generosidade absoluta


Está deitada ao meu lado, a ressonar. Acredito que o som dos meus dedos no teclado do computador também a tranquiliza: o ritmo certo/incerto destas palavras: letras-letras-letras espaço letras-letras-letras espaço. Se assim for, se a minha escrita contribuir para a paz do seu sono, está apenas a devolver-lhe aquilo que também recebe deste corpo encostado a mim, a respirar profundamente, como se essa fosse a sua resposta ao tempo.
Quando lhe pouso a mão em cima, deixa-me fazer tudo. Não se incomoda. Essa é a forma que tem de mostrar a sua confiança ilimitada. Não acorda, como se escolhesse não acordar. Oferece o corpo às minhas festas e, se a aperto com um pouco de mais força, deixa escapar um som de prazer preguiçoso, arrastado, nasce-lhe na garganta.
Noutras horas, quando sente um barulho mínimo nas escadas, começa por rosnar e, se o barulho continua, quer ladrar contra a porta fechada. É preciso chamá-la e convencê-la a pensar noutro assunto. Agora, esses episódios parecem histórias inventadas. Neste momento, abrir os olhos e voltar a fechá-los logo a seguir é o máximo de incómodo que aceita. Está tão calma, tem tanto vagar. Às vezes, debaixo das minhas festas, espreguiça-se longamente. Depois, perde a força nos músculos e afunda-se ainda mais no sono.
Eu já estava aqui sentado, a escrever, quando ela chegou muito direita. Caminhou na minha direção sem hesitar, com as patinhas a riscarem um som leve. Numa agilidade súbita, deu um pequeno salto e ficou ao meu lado. Então, encostou-se à minha perna, formámos uma pequena união de calor, e adormeceu.
Foi também assim que chegou à minha vida. Eu não esperava nada, não procurava nada, ela chegou e, sem forçar, conquistou-me inteiro com a sua presença. Quando lhe faço festas na cabeça, os seus olhos descobrem-se entre o pêlo. Há uma certa tristeza nesse olhar antigo, como se carregasse restos de uma mágoa. Compreendo-a e, às vezes, chego a acreditar que também ela me compreende a mim, também ela é capaz de distinguir essa mesma idade no meu olhar, esse silêncio. Encontrámo-nos aqui, mas viemos de lugares distantes.
Durante o dia, passeia sossegada pela casa. Só ela sabe onde vai. Com frequência, escolhe um quadrado de sol no chão e deixa cair as orelhas. Nessas ocasiões, está preparada para qualquer surpresa.
De todas as palavras que existem no mundo, há duas que a enchem de eletricidade: "rua" e "bola". Rejuvenesce com cada uma delas, enlouquece. Na rua, muito interessada, como se estivesse a tomar conhecimento das últimas notícias, vai sempre cheirar os mesmo cantos. Fingindo não fazer caso, partilhamos o pudor do momento em que baixa as duas patinhas de trás e, depois, se afasta de uma pequena poça de chichi. Com a bola, dá saltos no ar, apoia-se em duas patas, chega a ficar assim alguns segundos, como no circo, e parece cega quando corre para apanhá-la. Vai buscá-la onde for preciso.
Quando eu andava na escola primária, numa visita de estudo ao Jardim Zoológico de Lisboa, admirei-me com o cemitério dos animais de estimação. Estava habituado a cães que mal tinham nome, que eram levados numa saca e enterrados no campo. Durante anos, habituávamo-nos a ver um cão quando passávamos numa certa rua, depois, um dia, deixávamos de vê-lo. Era assim.
Hoje, com esta cadelinha, sinto-me como aquele velho mal-humorado, a queixar-se de tudo, a culpar sempre os outros, mas que se derrete com os netos, lhes permite tudo, e quase parece outra pessoa. Talvez por isso, sou agora capaz de compreender que, quando morre um cão, há uma tristeza específica. É fina e espeta-se no pensamento. Aleija só de imaginar. Deriva da pena de não termos sido capazes de estar à altura da pureza, da generosidade absoluta.
Aqui, o tempo desta sala continua à mesma cadência, letras-letras-letras espaço letras-letras-letras espaço. Às vezes, ela estremece de repente. O arco da respiração perturba-se. Está talvez a sonhar. Aperto-a de encontro a mim. Nada te pode fazer mal, pequenina. Eu protejo-te com a mesma dedicação com que me proteges. Esta companhia que partilhamos é eterna.

José Luís Peixoto

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Lembras-te? foi por fim num dia de Verão...era Setembro...

Carta (Esboço)

Lembro-me agora que tenho de marcar um 

encontro contigo, num sítio em que ambos 
nos possamos falar, de facto, sem que nenhuma 
das ocorrências da vida venha 
interferir no que temos para nos dizer. Muitas 
vezes me lembrei de que esse sítio podia 
ser, até, um lugar sem nada de especial, 
como um canto de café, em frente de um espelho 
que poderia servir de pretexto 
para reflectir a alma, a impressão da tarde, 
o último estertor do dia antes de nos despedirmos, 
quando é preciso encontrar uma fórmula que 
disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer. É 
que o amor nem sempre é uma palavra de uso, 
aquela que permite a passagem à comunicação
mais exacta de dois seres, a não ser que nos fale, 
de súbito, o sentido da despedida, e que cada um de nós 
leve, consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio 
ser, como se uma troca de almas fosse possível 
neste mundo. Então, é natural que voltes atrás e 
me peças: «Vem comigo!», e devo dizer-te que muitas 
vezes pensei em fazer isso mesmo, mas era tarde, 
isto é, a porta tinha-se fechado até outro 
dia, que é aquele que acaba por nunca chegar, e então 
as palavras caem no vazio, como se nunca tivessem 
sido pensadas. No entanto, ao escrever-te para marcar 
um encontro contigo, sei que é irremediável o que temos 
para dizer um ao outro: a confissão mais exacta, que 
é também a mais absurda, de um sentimento; e, por 
trás disso, a certeza de que o mundo há-de ser outro no dia 
seguinte, como se o amor, de facto, pudesse mudar as cores 
do céu, do mar, da terra, e do próprio dia em que nos vamos 
encontrar, que há-de ser um dia azul, de verão, em que 
o vento poderá soprar do norte, como se fosse daí 
que viessem, nesta altura, as coisas mais precisas, 
que são as nossas: o verde das folhas e o amarelo 
das pétalas, o vermelho do sol e o branco dos muros.
Nuno Júdice, in “Poesia Reunida” 
 

























segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

...porque é uma delicia ouvir o que tem para dizer...

(...) temos muito a aprender com os animais.. um animal é de facto aquele que te ama incondicionalmente, ele só quer saber se tu chegas, não quer saber se lhe ralhaste de manhã, se vens chateado, ama-te incondicionalmente. (...) estão ali para nós, um conforto um companheirismo... (...) a defesa dos direitos dos animais, é uma coisa que germina em mim desde miúdo, porque eu apesar de ter medo de cães ( tinha em miúdo) nunca lhes desejava mal, e acho sobretudo é mais uma das zonas da vida que nos define enquanto pessoas.
(...) Como é possível tu pegares num animal estás a olha-lo nos olhos, sabendo que vais pegar nele e abandona-lo na estrada?
Pessoas que são capazes de fazer mal aos animais, para mim definem-se em muita coisa na vida. "

Rodrigo Guedes de Carvalho (Jornalista)

Entrevista: 
http://www.videosbacanas.com/rodrigo-guedes-de-carvalho-no-alta-definicao-sic-programa-do-dia-09-02-2013/

...

Estou deitado e o tempo passa sobre mim em crescentes lençóis
e durmo e nem ambiciono a posição da árvore
Aceito tudo e sou mais branco cada vez
que o sol se põe sobre a cansada imensidão do rosto
exposto ao ondular do trigo e à velha nova água 
Sou pedra ou esquecimento? Que serei?
Alguém responderá. Mas quem? Ou quando?
Estou assim entretanto. O meu modo de ser
é todo este não ser de perguntar e responder 
Sou uma enorme dúvida estendida da cabeça aos pés
Nem sei já se nasci - ou quando - ou se morri 
Não sou todo este ser que finalmente de si mesmo se cansou 
E abro muitas bocas. Quem à minha volta? 
Nunca estive mais perto de ninguém.

Ruy Belo
Foto:(c) Anka Zhuravleva

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

"UE vai proibir testes em animais a partir de Março deste ano."


Vai ser proibida a venda de todos os produtos e ingredientes cosméticos, dos sabonetes às pastas de dentes, que tenham sido testados em animais


A luta dos activistas pelos direitos dos animais pode estar perto de uma nova vitória. Segundo Tonio Borg, Comissário Europeu da Saúde e Defesa do Consumidor, que deu a conhecer a informação, a importação e venda de cosméticos testados em animais vai mesmo ser proibida na União Europeia (UE), a partir de 11 de Março deste ano.

"Acredito que a proibição deverá entrar em vigor em Março de 2013, pois o Parlamento e o Conselho já decidiram", lê-se na carta que Borg endereçou aos activistas, divulgada pela Newswire.

O comissário acrescenta ainda que a proibição não deve ser "adiada ou revogada", já que esta decisão já vinha a ser planeada e consequentemente adiada desde 2009. Esta medida vai impedir a venda de todos os produtos e ingredientes cosméticos na União Europeia, dos sabonetes às pastas de dentes, que tenham sido testados em animais - seja qual for a parte do mundo em que tal tenha acontecido.

Contagem decrescente
A novidade está a deixar várias entidades satisfeitas, principalmente a cadeia The Body Shop e a organização Cruelty Free International que há mais de 20 anos levam a cabo uma campanha pelo fim dos testes em animais.

Paul McGreevy, director de valores internacionais da The Body Shop, realçou a "grande conquista" que considera como o esperado "encerramento de um capítulo", já que, afirma, "o futuro da beleza deve ser sem crueldade".

Michelle Thew, diretora executiva da Cruelty Free International, garante que esta decisão é só o começo e diz continuar a lutar "para garantir que o resto do mundo seguirá o mesmo caminho", disse.

Os defensores dos animais já estão em contagem decrescente para a data marcada e já têm algumas iniciativas comemorativas programadas. Mais mais importante ainda, esperam conseguir assim "inspirar" outros países a banir os testes em animais, como é o caso da China.

Lido em "P3"

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

"Salvem o gato" ...

(Para melhor leitura, clicar na imagem...)


 Maria José Morgado | Expresso a 26 de janeiro de 2013

"Um dia a maioria de nós irá separar-se (...)"

Sentiremos saudades de todas as conversas jogadas fora, 
das descobertas que fizemos, dos sonhos que tivemos, 
dos tantos risos e momentos que partilhamos. 


Saudades até dos momentos de lágrimas, da angústia, das 
vésperas dos finais de semana, dos finais de ano, enfim... do 
companheirismo vivido. 

Sempre pensei que as amizades continuassem para sempre. 
Hoje não tenho mais tanta certeza disso. 


Em breve cada um vai para seu lado, seja pelo destino ou por algum
desentendimento, segue a sua vida. 
Talvez continuemos a nos encontrar, quem sabe...nas cartas que 
trocaremos. 

Podemos falar ao telefone e dizer algumas tolices... 
Aí, os dias vão passar, meses...anos... até este contacto se tornar
cada vez mais raro. 
Vamo-nos perder no tempo.... 

Um dia os nossos filhos verão as nossas fotografias e perguntarão:
"Quem são aquelas pessoas?" 

Diremos...que eram nossos amigos e...... isso vai doer tanto! 
-"Foram meus amigos, foi com eles que vivi tantos bons 
anos da minha vida!" 

A saudade vai apertar bem dentro do peito. 
Vai dar vontade de ligar, ouvir aquelas vozes novamente...... 

Quando o nosso grupo estiver incompleto... 
reunir-nos-emos para um último adeus de um amigo. 

E, entre lágrima abraçar-nos-emos. 

Então faremos promessas de nos encontrar mais vezes 
daquele dia em diante. 

Por fim, cada um vai para o seu lado para continuar a 
viver a sua vida, isolada do passado. 

E perder-nos-emos no tempo..... 

Por isso, fica aqui um pedido deste humilde amigo: não deixes 
que a vida passe em branco, e que pequenas adversidades sejam a 
causa de grandes tempestades.... 

Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem 
morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos
os meus 
amigos!" 

Fernando Pessoa

"Activistas criam “outdoors” contra a exploração animal e querem levá-los a todo o país."

Lutam por quem não tem voz e sonham com o dia em que os animais nao sejam vistos como um objecto. É preciso uma nova lei e mudança de hábitos

Pesquisem sobre o assunto e percam alguns minutos a pensar nele. O pedido é feito por oito activistas ligadas à causa animal (e não só) e esconde uma forte convicção: “Quero acreditar que as pessoas o fazem inadvertidamente, se houvesse reflexão seria diferente”, declara Bebiana Cunha. Aqui fala-se da exploração animal que alguns fazem e com a qual muitos outros compactuam – fala-se de ética, de uma lei desadequada que continua a ver os animais como “coisas” e não como seres vivos. Mas já lá vamos.

Tudo começou numa troca de emails feita entre oito pessoas (na foto falta uma) que se conheciam de “outras lutas” em nome dos animais. Unia-as a vontade de fazer algo que ajudasse a consciencializar a sociedade para o tema da exploração animal. Estávamos em Maio de 2012.

Quando a ideia dos cartazes surgiu (mérito para Bebiana Cunha) perceberam que podia ser aquele o projecto. Sara Branco assumiu a câmara fotográfica, Daniela Graça ficou responsável pelo design, todas (à excepção de Sara, que ficou do lado invisível) deram a cara pela causa – Bárbara Branco, Diana Loureiro, Inês Zilhão, Joana Dumas e Sandra Pereira completam o grupo.

Para já, a campanha está ainda na gaveta. Mas pronta a usar: “Apelamos a que haja alguém que queira aproveitar a nossa boa vontade e a nossa imagem, pegar na campanha para chegar a mais gente”, diz Bebiana. São sete os cartazes que as activistas sonham ver espalhados em “outdoors” pelo país e que, esperam, possam ajudar à “tomada de consciência” e a uma “alteração do paradigma em relação à ética animal”. No Facebook criaram a página "Qual é o teu cartaz?", que quer juntar mais gente, mais causas e mais informação - e convida todos os que tenham uma ideia a partilhá-la em formato de cartaz. 

Campanha sem radicalismos
Esqueçam radicalismos, apesar de essa ser uma acusação que lhes é feita muitas vezes: “Dizem muitas vezes que só defendemos os animais e não queremos saber das pessoas. Não é real, não queremos saber só dos animais, somos pessoas preocupadas com todos os que não têm poder, que estão desempregados, que não têm voz... e os animais são um deles.”

O objectivo último desta acção é operar uma “mudança de legislação” que permita que “os animais deixem de ser vistos como objectos, como coisas, e passem a ter o direitos enquanto seres vivos que são” (há uma petição online pela mesma causa, uma nova lei de Protecção dos Animais em Portugal, que já conta com mais de 60 mil assinaturas).

Quem perder alguns minutos a pensar nas linhas seguintes vai alterar alguns hábitos – palavra (ou esperança) destas activistas. Faz sentido a criação de animais em “verdadeiros campos de concentração” (“não há outro nome para a forma como os animais são colocados em espaços de um metro quadrado, para a forma como são explorados, a maior parte das vezes sem luz e sem acesso a espaços exteriores”, defende Bebiana Cunha)? Faz sentido as vacas estarem “constantemente prenhes para poderem produzir leite para os humanos consumirem”?

Faz sentido “devastar a Amazónia” em busca de óleo de palma para produção de soja, que “serve maioritariamente para alimentar o gado”? Acreditam que “a produção de gado em termos de emissão de CO2 e de poluição dos lençóis freáticos é o maior poluente que nós temos”? Sabiam que alguns elefantes são “treinados sob metal a escaldar” com sons (condicionamento clássico de Pavlov) para aprenderem a levantar a pata no circo e dessa forma entreterem o ser humano? Que “um elefante em 'habitat' natural dura até aos 70 anos e no circo até aos 14/ 15 anos”?

Por quê comprar um animal se há “milhares abandonados e à procura de um dono”? Em nome de quê se usam peles “manchadas de sangue e de sofrimento”? Por que razão “fazemos do sofrimento do touro um espectáculo”? Se existem métodos alternativos e a fiabilidade dos testes em animais “nem é assim tão grande”, “porque torturamos animais”?

As perguntas lançadas querem ajudar a construir uma sociedade mais equilibrada e menos centrada no ser humano (“acho que continuamos a ter o complexo de Deus”, lamenta Daniela Graça), também em nome da “sustentabilidade e de gestão do planeta”. "Até porque, se pensarmos um bocadinho, percebemos que tudo isto só acontece para alimentar indústrias poderosas", acrescenta Bebiana Cunha. 

Não defendem que temos todos de ser vegans (como Bebiana é), mas acreditam que pequenas acções podem fazer a diferença. Como a de Sara Branco, que passou a comer carne menos vezes e só compra carne biológica, ou como a “Segunda-feira sem carnes”, relembra a irmã, Bárbara Branco, a que vários países já aderiram e que “poupa muitas vidas”. “Acreditamos que podemos construir uma rede, eu influenciei a minha irmã, ele pode influenciar mais gente e por aí adiante”, diz Bárbara.

Para que a mudança seja efectivada, é preciso mais "aposta na educação, de preferência logo nas escolas", defende Bebiana Cunha: “Falta ética animal, pensamos sempre na lógica humana, mas temos de perceber de uma vez por todas que tudo está ligado.”

A verdade, garantem, é que há alternativas que não implicam sofrimento de seres vivos. Roupa sintética em vez de peles, circos sim, mas sem animais, adoptar animais em vez de comprar, não usar animais para fazer testes, preferir carne biológica e reduzir (ou eliminar) o consumo. Touradas e lutas de cães nunca. Bebiana atira a pergunta final: “Qual é o sentido, quando estamos a falar de seres vivos que têm sentimentos, que pensam, que planeiam, que executam, que sofrem, que manifestam por nós afecto... qual é o sentido de chamarmos a um animal uma coisa e tratá-lo como tal?”

Lido em "P3"

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

"Sejamos humanos, deixemos os animais em paz!"

O prazer de enfrentar um animal, qualquer que ele seja e a adrenalina que isso provoca, de o fatigar, de o enganar, de o perseguir e de lhe tirar a vida está gravado na parte mais antiga do nosso cérebro, aquela que herdámos dos nossos antepassados répteis. Também aí se encontram os instintos mais primários, a agressividade, a territorialidade, a xenofobia, a necessidade de pertencer a um grupo, os ritos, etc.

Esta informação foi-nos útil, nos tempos em que éramos caçadores recolectores, nos tempos em que tínhamos de caçar para comer, nos tempos em que tínhamos de lutar para sobreviver.

Do ponto de vista da psicologia e da sociologia, as touradas, a caça e outras actividades semelhantes são figurações das caçadas dos nossos antepassados. Do mesmo modo, os jogos de equipa são figurações das batalhas que tivemos que travar para defender o nosso território. Ainda assim, não perdemos uma oportunidade de travar uma ou outra guerrita, com mais ou menos efeitos colaterais (leia-se número de mortos…), afinal, temos de descarregar a testosterona de qualquer forma, não é verdade?

O problema é que já não somos caçadores recolectores, evoluímos, tanto fisicamente como socialmente.

Fisicamente, o nosso cérebro evoluiu significativamente, aumentou de volume com o surgimento do córtex cerebral. É aqui que a matéria se transforma em consciência, o reino da intuição, da consciência e da análise critica. É aqui que surgem as ideias e as inspirações, que lemos e escrevemos, é aqui que reside o gosto pelas artes e a cultura. É o que distingue a nossa espécie, o cerne da humanidade.

Socialmente, evoluímos para outras formas de sociedade, sedentarizámo-nos, tornámo-nos agricultores, domesticámos animais, tornámo-nos artífices, e por aí fora, passando pela revolução industrial até aos nossos dias.

Mas, pelos vistos, evoluímos pouco. Ainda não apagámos dos recônditos mais profundos do nosso cérebro a informação que já não nos faz falta e que é, em certa medida, desnecessária e contraproducente, ainda não fomos capazes de dar o salto qualitativo que temos que dar em termos de respeito para com o meio ambiente e para com todos os seres vivos.

Ceder aos instintos mais primários, deixar que o ser primitivo se sobreponha ao ser humano que há em nós é sinal de pouca inteligência. Como seres inteligentes (pelo menos, é suposto…) deveríamos ser capazes de sobrepor a inteligência ao instinto, de fazer com que o lado racional prevaleça sobre o lado irracional.

Sejamos humanos, deixemos os animais em paz!

Por Carlos Galvão

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

movies and words...


..." As mulheres do Norte deveriam mandar neste país."...

"As raparigas do norte têm belezas perigosas, olhos impossíveis. Têm o ar de quem pertence a si própria. Andam de mãos nas ancas. Olham de frente. Pensam em tudo e dizem tudo o que pensam. Confiam, mas não dão confiança. Acho-as verdadeiras. Acredito nelas. Gosto da vergonha delas, da maneira como coram quando se lhes fala e da maneira como podem puxar de um estalo ou de uma panela, quando se lhes falta ao respeito. São mulheres que possuem; são mulheres que pertencem. As mulheres do Norte deveriam mandar neste país. Têm ar de que sabem o que estão a fazer."

Miguel Esteves Cardoso

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Por esta altura já todos saberão quem é o Zico...


Aparte cores partidárias, este foi o texto mais lúcido que li, sobre a tragédia que envolveu duas vitimas, a criança que morreu e o cão que tem em si a sentença de morte...

"Hesitei muito em assinar ou não a petição contra a execução do cão que recentemente matou uma criança. O desconhecimento das circunstâncias concretas aconselhou-me algum cuidado, para não ficar prisioneiro de debates falsos, nem de querelas religiosas. Mas um argumento que ouvi na TV decidiu-me a assinar a petição e assim fiz.

Para ser claro, não entro em polémicas religiosas sobre a transcendência da decisão sobre a vida e da morte dos animais, porque sei e aceito que matemos insectos e outros animais para nos defendermos (nem vou voltar a discutir se podemos matar os mosquitos que nos picam ou outros) ou porque, bem ou mal, grande parte da espécie humana se alimenta de peixe ou de outros animais. Mas nunca aceitei a razão dos que acham que a morte deve ser encenada para gáudio de um espetáculo, e acho significativo que os defensores das touradas de morte se agitem para serem protagonistas desta controvérsia. São pontos de vista religiosos e vou deixá-los em paz, porque não me interessam.

O que me interessa é qual é a melhor forma de lidar com a responsabilidade da morte da criança.

Há um evidente problema de justiça porque houve uma morte horrorosa, que é um crime. Segundo a lei, a responsabilidade perante a justiça é dos donos do cão. A lei está certa. Que nada disfarce ou esconda essa responsabilidade: quem cria um cão, quem o educa e quem o mantém é responsável pelas suas ações. O cão não é um sujeito jurídico, os donos são. Os culpados são esses e devem responder por isso. Não há nada que possa ser feito ao instrumento ocasional do crime, que foi o cão, que mude ou diminua essa responsabilidade de justiça.

Há depois um problema de segurança. Que pode ser resolvido de muitas maneiras: em Sete Rios, em Lisboa, há um jardim com cobras, jacarés, hipopótamos, leões e outros animais que são perigosos ou podem ser perigosos. O problema de segurança é resolvido separando-os das crianças que os visitam.

Há um problema de segurança com os lobos em matas em todo o país. E é proibido matá-los.

Há um problema de segurança com o famoso lince da serra da Malcata. E, se alguém o encontrar, está proibido de o matar.

O problema de segurança não se resolve matando, a não ser quando estamos a ser atacados e não há outra alternativa. Não parece ser o caso. É por isso que, no meio de todo o debate apaixonado sobre a questão da execução do cão, aconselho simplesmente a que voltemos ao essencial: à proibição da manipulação genética destinada a criar animais para a violência; à responsabilidade permanente dos donos quanto à educação dos animais domésticos e aos seu comportamento; e à criação das melhores condições de segurança para as crianças em casa ou na rua. O essencial é o essencial e a execução do cão é um espetáculo para fugir do essencial, um alibi para os culpados e uma forma de a sociedade passar à próxima notícia do telejornal. Eu assino contra essa mistificação e fuga à responsabilidade."

Francisco Louçã

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

"Podemos ter de pagar pelo lixo que produzimos? Conheça o sistema pay-as-you-throw."


O Parlamento discute hoje uma possível alteração ao pagamento de taxas de resíduos, avaliando se, tal como acontece em outros países, se pode aplicar em Portugal a máxima do poluidor/pagador.
A medida tem três objectivos – combater o desperdício, pôr Portugal a poupar com a factura dos resíduos, estimulando a reciclagem, trazer justiça às contas a pagar pelos portugueses.
Mas como funciona este sistema, conhecido como PAYT (pay-as-you-throw, qualquer coisa como “pague à medida que atira fora”)?
O sistema poderá substituir a taxa do lixo calculada em função do consumo de água, paga igualmente todos os cidadãos, independentemente de separarem ou não os materiais para reciclar.
Este processo já existe em diversas cidades europeias. “Tem apresentando bons resultados, embora para a sua implementação seja necessária a instalação de um sistema de recolha selectiva eficiente, complementado por uma forte campanha de sensibilização da população”, explica a Quercus, que já se manifestou favorável à alteração.
“A Quercus apoia a proposta apresentada pelos partidos da maioria sugerindo ao Governo que tome medidas no sentido de que a taxa do lixo deixe de ser paga em função do consumo da água, passando a ser cobrada em função da quantidade de resíduos produzidos, uma vez que vai permitir induzir hábitos de reciclagem nos Portugueses”, revela a ONGA em comunicado.
Com este sistema, o cálculo da tarifa poderá ser feito em função do peso ou do volume dos resíduos, existindo diversos processos de recolha – sacos, contentores ou outros.
“A maior separação dos materiais recicláveis induzida por este processo tornará mais barata a gestão dos resíduos pelas câmaras municipais que optarem por este sistema, pois o envio de materiais para reciclar gera receitas, enquanto o envio para aterro ou incineração tem custos”, continua a Quercus.
Em Portugal ainda não foi instalado um sistema deste género, sendo que a primeira experiência desta prática deverá arrancar na Maia.


terça-feira, 8 de janeiro de 2013

S.O.S Planet...


Consulta pública da União Europeia aos seus cidadãos...


Se acharem por bem, PREENCHAM E DIVULGUEM ... Demasiado importante para se ignorar...

Trata-se de uma consulta pública da União Europeia aos seus cidadãos sobre o que eles acham de se adoptarem novas técnicas de prospecção de combustíveis, nomeadamente o gás de xisto. O problema é que uma dessas técnicas é o temido "fracking", que consiste na injecção de líquidos no subsolo para partir as rochas e libertar os gases combustíveis nelas contidas. Este "fracking" pode causar sismos e contaminações do ar e dos lençóis de água subterrâneos...

Link:

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Este governo, que pouco liga à vontade do povo...um dia vai ter que olhar, para esta questão, que se impõe!...


 O meu movimento” é uma plataforma virtual, criada no portal do governo da república. Nas palavras dos mesmos, a iniciativa pretende “dar uma oportunidade a todos de participar no debate sobre o futuro do nosso país. De uma forma lúdica e simples, qualquer cidadão português pode defender as causas em que acredita, fazendo-se ouvir por todos – e especialmente pelo seu Governo.” No entanto, para além de uma conversa pessoal com Passos Coelho, nada sabemos sobre o que pretende o governo fazer com as causas vencedoras.

No dia 30 de dezembro terminou a votação na segunda edição do concurso. A segunda, porque a primeira terminou no início de 2012, e pouco ou nada diferiu da segunda. Nas duas edições foram criados centenas de movimentos mas o tema transversal aos que sempre lideraram as tabelas de mais votados foi claro como água, e só deixou dúvidas a quem as quis ter.
Alteração do estatuto jurídico dos animais, fim do uso de animais em circos, interdição de menores em espetáculos tauromáquicos, fim dos canis e gatis de abate ou nova lei de proteção animal foram causas que se mantiveram nos primeiros lugares.

Está à vista, para quem quiser ver, que na sociedade portuguesa há uma preocupação crescente e ativa com questões relacionadas com a proteção animal. Mas a população apostou em força noutra causa, tanto na primeira como na segunda edição, a causa anti-tauromáquica.

Na primeira edição o Movimento do Sérgio manteve-se imperturbável, do início ao fim, no primeiro lugar do concurso, era o movimento pelo “Fim das Corridas de Touros”. Agora, na segunda edição, os portugueses continuaram a manifestar o seu profundo desagrado com a prática de espetáculos tauromáquicos em Portugal, acrescido ao facto de agora perceberem que estes são feitos à custa dos seus impostos. Assim, saiu vencedor o Movimento do Rui Manuel, pelo “Fim dos Dinheiros Públicos para as Touradas”.

Ao longo de 2012 assistimos a uma expressão popular clara de repúdio ao uso dos dinheiros públicos para a tauromaquia. Foram criados movimentos, feitas campanhas, entregues petições, em território continental e nas nossas ilhas dos Açores. Felizmente, o arquipélago da Madeira não padece deste mal. Assistimos também, pelas mãos do PEV e do BE, o assunto a ser levado à Assembleia da Republica, prova de que a voz das pessoas se faz ouvir, ainda que só por alguns.

Mas não pode ser só por alguns, não pode, porque o governo de Passos Coelho criou um espaço para que as pessoas pudessem defender as suas causas ao criar uma iniciativa que dá oportunidade aos cidadãos de exporem as razões pelas quais defendem causas, na primeira pessoa, ao primeiro-ministro de Portugal.

Com toda a legitimidade, exige-se agora que o governo de Passos Coelho aja com alguma coerência e dê respostas às situações que ele próprio criou. O governo de Passos Coelho disse querer ouvir os cidadãos e os cidadãos falaram, falaram e foram claros. Agora, resta-lhe cumprir a sua parte sem demoras, sem rodeios e sem touradas.

Francisca Ávila

Publicado em Faial Online

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

O amor é uma companhia.

O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.

Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.

10-7-1930 “O Pastor Amoroso”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993).  - 100.