quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Como é possível 15 municípios desejarem tornar a tourada património cultural de Portugal?! É atroz, é cruel, é obsceno.

Tudo o que sentirei é vergonha da minha cultura, se tamanha aberração se tornar património cultural desta terra, isto não é cultura, isto é TORTURA!!!!

Isto é a tourada:

É uma sangueira por todo o terreiro, as damas riem, batem palmas e os touros morrem uns após outros […] as fontes abertas nos flancos dos touros, manando a morte viva que faz andar a cabeça à roda, mas a imagem que se fixa e arrefece os olhos, é a cabeça descaída de um touro, a boca aberta, a língua grossa pendendo, que já não ceifará a erva dos campos, ou só os pastos de fumo do outro mundo dos touros, como haveremos de saber se Inferno ou Paraíso (?). Paraíso será, se justiça houver, nem pode haver Inferno depois do que sofrem estes. 

José Saramago, Memorial do Convento 


O touro entra na praça. Entra sempre, creio. Este veio em alegre correria, como se, vendo aberta uma porta para a luz, para o sol, acreditasse que o devolviam à liberdade. Animal tonto, ingénuo, ignorante também, inocência irremediável, não sabe que não sairá vivo deste anel infernal que aplaudirá, gritará, assobiará durante duas horas, sem descanso. 

O touro atravessa a correr a praça, olha os “tendidos” sem perceber o que acontece ali, volta para trás, interroga os ares, enfim arranca na direcção de um vulto que lhe acena com um capote, em dois segundos acha-se do outro lado, era uma ilusão, julgava investir contra algo sólido que merecia a sua força, e não era mais do que uma nuvem. Em verdade, que mundo vê o touro? 

(…) 

O touro vai morrer. Dele se espera que tenha força suficiente, brandura, suavidade, para merecer o título de nobre. Que invista com lealdade, que obedeça ao jogo do matador, que renuncie à brutalidade, que saia da vida tão puro como nela entrou, tão puro como viveu, casto de espírito como o está de corpo, pois virgem irá morrer. Terei medo pelo toureiro quando ele se expuser sem defesa diante das armas da besta. Só mais tarde perceberei que o touro, a partir de um certo momento, embora continue vivo, já não existe, entrou num sonho que é só seu, entre a vida e a morte. 

José Saramago, Cadernos de Lanzarote, Volume II 


Coberto de sangue, atravessado de lado e lado por lanças, talvez queimado pelas bandarilhas de fogo que no século XVIII se usaram em Portugal, empurrado para o mar para nele perecer afogado, o touro será torturado até à morte. As criancinhas ao colo das mães batem palmas, os maridos, excitados, apalpam as excitadas esposas e, calhando, alguma que não o seja, o povo é feliz enquanto o touro tenta fugir aos seus verdugos deixando atrás de si regueiros de sangue. É atroz, é cruel, é obsceno. Mas isso que importa se Cristiano Ronaldo vai jogar pelo Real Madrid? Que importa isso num momento em que o mundo inteiro chora a morte de Michael Jackson? Que importa que uma cidade faça da tortura premeditada de um animal indefenso uma festa colectiva que se repetirá, implacável, no ano seguinte? É isto cultura? É isto civilização? Ou será antes barbárie? 

José Saramago, Espanha Negra, Junho de 2009 

José Saramago, ribatejano, Prémio Nobel, punha em causa as touradas, que também a ele pareciam bárbaras e cruéis. 


Que dignidade tem esta barbárie?...




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