I want to do with you
what spring does with the cherry trees.
Pablo Neruda
"Se, por um instante, Deus se esquecesse de que sou uma marionete de trapo e me presenteasse com um pedaço de vida, possivelmente não diria tudo o que penso, mas, certamente, pensaria tudo o que digo."... Johnny Welch
Vive o instante que passa. Vive-o intensamente até à última gota de sangue. É um instante banal, nada há nele que o distinga de mil outros instantes vividos. E no entanto ele é o único por ser irrepetível e isso o distingue de qualquer outro. Porque nunca mais ele será o mesmo nem tu que o estás vivendo. Absorve-o todo em ti, impregna-te dele e que ele não seja pois em vão no dar-se-te todo a ti. Olha o sol difícil entre as nuvens, respira à profundidade de ti, ouve o vento. Escuta as vozes longínquas de crianças, o ruído de um motor que passa na estrada, o silêncio que isso envolve e que fica. E pensa-te a ti que disso te apercebes, sê vivo aí, pensa-te vivo aí, sente-te aí. E que nada se perca infinitesimalmente no mundo que vives e na pessoa que és. Assim o dom estúpido e miraculoso da vida não será a estupidez maior de o não teres cumprido integralmente, de o teres desperdiçado numa vida que terá fim.
Escrevi até o princípio da manhã aparecer na janela. O sol a iluminar os olhos dos gatos espalhados na sala, sentados, deitados de olhos abertos. O sol a iluminar o sofá grande, o vermelho ruço debaixo de uma cobertura de pêlo dos gatos. O sol a chegar à escrivaninha e a ser dia nas folhas brancas. Escrevi duas páginas. Descrevi-lhe o rosto, os olhos, os lábios, a pele, os cabelos. Descrevi-lhe o corpo, os seios sob o vestido, o ventre sob o vestido, as pernas. Descrevi-lhe o silêncio. E, quando me parecia que as palavras eram poucas para tanta e tanta beleza, fechava os olhos e parava-me a olhá-la. Ao seu esplendor seguia-se a vontade de a descrever e, de cada vez que repetia este exercício, conseguia escrever duas palavras ou, no máximo, uma frase. Quando a manhã apareceu na janela, levantei-me e voltei para a cama. Adormeci a olhá-la. Adormeci com ela dentro de mim.
como desejo que sejas capaz de esquecer, deixar para trás um passado recente...não queria que te magoasse mais, queria que o deixasses ir...que ficasse fechado, onde tem que ficar ...entristece-me sentir que te corroí tanto, ainda...e que queres largar...mas não te permites...o orgulho...ferido...eu sei...como sei...é quase como um aloquete; que precisa da chave certa para se abrir e libertar...sei que tens a chave, mas que continuas preso ao sentimento que te entorpece a alma...a culpa? é minha, eu sei....mas não posso apagar este ano, o ano que a minha intuição pressentiu....mas não acabou ainda, espero que passe, rápido, não me vou despedir dele com saudade...mas alguém como tu, não poderia ser desiludido por alguém como eu...mas tu sabes, eu sou assim...tão imperfeita (tenho este meu jeito, tão estranho de ser...)...tu sabes....seja como for, ao contrário do que pensas, não é afeição...e tu sabes...estou aqui e espero pelo teu tempo, todo o meu tempo, que será por toda a minha vida se não demorares muito...(tal como alguém dizia...) espero por ti...tu sabes...