segunda-feira, 15 de novembro de 2010

..."Só o ICNB pode dar destino aos ursos, mas "ainda não há uma previsão" de quando isso acontecerá"...


"São três ursos-pardos - dois machos e uma fêmea -, que cresceram no mundo do circo. Foram comprados ainda pequeninos, criados a biberão dentro das caravanas da família Torralvo e depressa se tornaram numa das maiores atracções do circo Magic. Na pista actuavam sempre juntos - eles retiravam rebuçados da boca do tratador, ela dançava em cima de uma cadeira.

Em 2005 acabaram-se os truques e, por determinação legal, os ursos deixaram de poder actuar em espectáculos por não terem a documentação necessária. "Quando foram comprados, a legislação era diferente e as exigências em termos de documentação também", recorda a filha do proprietário do circo, Odete Torralvo.

Na altura a família ainda pensou em legalizar os animais, mas "as autoridades disseram que já eram muito velhos para continuar a trabalhar, o que não era verdade", garante. Com ou sem ursos, as leis mudaram e o pequeno circo não teve capacidade para acompanhar as alterações. "Passou a ter de ser tudo certificado e isso custa muito dinheiro. Os grandes circos ainda conseguiram responder às exigências, mas mesmo assim com dificuldades", defende. O circo Magic continuou a fazer espectáculos com outros animais e, mais tarde, sem bichos, mas parou há seis meses. "E não sabemos se voltaremos a trabalhar", admite Odete. O chefe da família, Reinaldo Ferreira, já tem 66 anos e teve um AVC recentemente. O próprio negócio "tornou-se uma dor de cabeça". Passou de rentável a fonte de prejuízo.

Mesmo assim, a família Torralvo continua a viver em rulotes em Vila Boa do Bispo, perto de Marco de Canaveses.

Cinco anos e nem uma "previsão" Na altura em que foram apreendidos pelas autoridades, há cinco anos, decidiu-se que a família Torralvo ficaria como fiel depositária dos animais até que o Instituto da Conservação da Natureza e da Biodiversidade (ICNB) - a entidade encarregada, nestes casos, de providenciar um destino para os animais - conseguisse encontrar uma casa nova para os três ursos. Contudo, actualmente, o problema nem estará em conseguir um abrigo.

O Jardim Zoológico de Lisboa disponibilizou-se, há cerca de um mês, para acolher os animais de modo que possam cumprir o período de quarentena - procedimento necessário antes de os ursos serem deslocados para um novo habitat. O Parque Biológico da Lousã terá mostrado interesse em os abrigar definitivamente e os ursos "chegaram a ser visitados por técnicos do Parque Nacional da Peneda-Gerês", contou ao i a proprietária. Na altura, o ICNB garantiu que se a proposta do Parque Biológico da Lousã estivesse "em conformidade com a legislação", a situação seria resolvida.

Quase um mês depois, o Jardim Zoológico diz que continua interessado e que só está à espera "de directrizes do ICNB". Fonte do Serviço de Protecção da Natureza e do Ambiente (SEPNA) da GNR, que seria responsável por colaborar no transporte dos três ursos, também garante "que está pronta a actuar".

Contactado pelo i, o ICNB diz, no entanto, que "ainda não há uma previsão" de quando poderá ser resolvida a situação dos animais, porque se trata de "um processo muito complexo". Além disso, explica o instituto, ainda há "questões de segurança por resolver e outras questões que precisam de ser preparadas", escusando-se a revelar mais detalhes. "Trata-se de uma mudança que terá de ser bem preparada", limitou-se a explicar o gabinete de comunicação do ICNB.

Enquanto isso, os proprietários do circo desesperam, apesar de garantirem que os animais "são bem tratados". Poderia haver a "possibilidade de os legalizar e tratar da documentação", explica Odete Torralvo, mas "isso custa muito dinheiro" e a família teme que, entretanto, as autoridades determinem outro fim para os ursos.

"Já passou demasiado tempo e mais valia dizerem-nos se deveríamos tentar tratar da legalização. Caso contrário, que lhes arranjem um destino rapidamente", apela. E que esse destino seja "um sítio digno", acrescenta a proprietária, que garante que toda a família está "muito afeiçoada" aos animais.

"Por vezes, as pessoas vêm aqui e pensam que são maltratados, por estarem enjaulados, mas são animais de circo, que sempre viveram assim", esclarece. Outra das preocupações da família é garantir que o patriarca, Reinaldo Ferreira, não esteja presente no momento em que os ursos forem transportados para Lisboa. "Teremos de tirar o meu pai daqui, porque não vai aguentar se os vir a ir embora", explica. Mesmo assim, e apesar da ansiedade de ver "a situação resolvida", Odete Torralvo coloca algumas reservas em relação à possibilidade de os ursos serem postos em liberdade: "São animais que cresceram e sempre viveram em cativeiro. Não estão habituados. Pode ser complicado", alerta."

Fonte: "I" Online

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